ESTRANHO AMOR

April 5th, 2008 by vellozo

Estranho, estranho, estranho pássaro,
Voas, fugidio de meu abraço,
Não mais te conheço,
Eu, íntimo de teu regaço.

Estranho, estranho, estranho animal,
Se arrasta distando de meu quintal,
Teria sido sonho ou era real,
Ou era o que eras: delírio infernal.

Estranho, estranho pedaço de rocha,
De mim capaz de fazer troça,
Sentimento puro debocha,
Verdadeira face desabrocha.

Estranho, estranho ser feminil,
Revelas o pior do imo servil,
Revela-se entidade vil,
Traí, incapaz de ser gentil.

Estranho, estranho, estranho som de tua boca,
Dessa voz rouca,
Que muito promete mas é pouca,
Vestida ou sem roupa.

Estranho, estranho, estranho amor,
Prenhe de desgaste e bolor,
Ignora a dedicação, causa estupor
À alma agora sem color.

Estranho, estranho imigo,
Ex-companhia que inda persigo,
Para mim permanece perigo,
Sentimento senhor, eu servo prossigo.

Sorte é azar

November 27th, 2007 by vellozo

Quero sair, conhecer gente nova, pessoas interessantes, mulheres interessantes.

Ao mesmo tempo recordações deixam-me inseguro.

Dizem, mesmo, alguns, tornei-me misógino.

Interessante a palavra misoginia: o prefixo miso equivale a ódio ou aversão e o sufixo ginia a mulher.

Injusta atribuição!

Aprecio e muito as mulheres de “todos os colores, de vários olores, de muitos ou poucos amores”.

Mas da ebriez original dos iniciais encantos feromônicos, daquela avidez egoísta e epidérmica totalmente irracional, pouca resta após atingida a camada humana, prenhe de preconceitos, temores, fantasmas, fetiches.

De fato, desalentei, mas isto não é aversão à mulher, mas ao modelo socializado do feminino.

Explico-me melhor.

Sempre fui um sujeito de sorte, creio.

Nos ambientes que freqüentei e freqüento logrei consumar amizades com mulheres de todos os naipes.

Descobri, para minha felicidade, que o universo feminil é muito mais variado que morenas, loiras ou orientais.

Enquanto escrevo (digito) passa uma ambulância uivando urgência e eu do 14º andar sorrio tristemente, imagino algum homem enfartado após tentar, em vão, compreender o complexo mundo das mulheres.

Pontos em comum, horóscopo, espiritualidade, livros, filmes, viagens, lugares, profissão, sonhos, todos os aspectos relevantes e positivos dos envolvidos no jogo da sedução são desfilados e daí sai um beijo, um abraço e outras coisitas.

Umas semanas e tudo isto vai se puindo, com a histeria dos telefonemas, torpedos, e-mails ou visitas intempestivas.

Não são dois ou três destes expedientes, mas inúmeros e diariamente.

Sem falar no famoso questionamento: você me ama?

Ora, como responder a isto com duas semanas ou um mês de relacionamento?

Quero sair, mas, com efeito, quando chego num bar, numa festa, ou qualquer lugar outro e me apresentam aquela mulher maravilhosa, já sei o que esperar a curto e a médio prazo ao menos e fico tentadíssimo de perguntar-lhe como será, caso “role” alguma coisa, dali algum tempo.

Haverá alguma surpresa?

Será uma mulher diferente?

Será ela minha alma gêmea, da qual o “que venha é bem vindo”?

Dirão alguns: ele não se apega a nada; ele é o problema; os defeitos que vê nas mulheres ele os tem!

Pode até ser. É possível, mesmo, que não tenha achado a mulher ideal, embora tenha conhecido muitas, mas, até agora, nenhuma escapou do estereótipo “saiu comigo, tem que me agüentar”.

Por enquanto, na minha imperfeição, como não dou telefonemas insistentes, não gosto de e-mails, torpedo nem pensar e, por fim, porque penso que amor se mostra e não se fala, vou produzindo uma existência anacoreta, ainda que sem castidade, mas ressabiada e cautelosa, desejando conciliar desejo, paixão, talvez até amar, com um pouco de sossego e privacidade.

Assim, minha sorte com as fêmeas tornou-se azar, porque de tanto tê-las julguei conhecê-las e por julgá-las espaçosas acabei condenado, pela minha ciência, à auto-exclusão.

Quero as mulheres mas não suas obsessões.  Não está faltando “homens no mercado” como dizem as dignas e desejadas fêmeas, está sobrando homens “escaldados”.

Sorte é azar

November 27th, 2007 by vellozo

Quero sair, conhecer gente nova, pessoas interessantes, mulheres interessantes.

Ao mesmo tempo recordações deixam-me inseguro.

Dizem, mesmo, alguns, tornei-me misógino.

Interessante a palavra misoginia: o prefixo miso equivale a ódio ou aversão e o sufixo ginia a mulher.

Injusta atribuição!

Aprecio e muito as mulheres de “todos os colores, de vários olores, de muitos ou poucos amores”.

Mas da ebriez original dos iniciais encantos feromônicos, daquela avidez egoísta e epidérmica totalmente irracional, pouca resta após atingida a camada humana, prenhe de preconceitos, temores, fantasmas, fetiches.

De fato, desalentei, mas isto não é aversão à mulher, mas ao modelo socializado do feminino.

Explico-me melhor.

Sempre fui um sujeito de sorte, creio.

Nos ambientes que freqüentei e freqüento logrei consumar amizades com mulheres de todos os naipes.

Descobri, para minha felicidade, que o universo feminil é muito mais variado que morenas, loiras ou orientais.

Enquanto escrevo (digito) passa uma ambulância uivando urgência e eu do 14º andar sorrio tristemente, imagino algum homem enfartado após tentar, em vão, compreender o complexo mundo das mulheres.

Pontos em comum, horóscopo, espiritualidade, livros, filmes, viagens, lugares, profissão, sonhos, todos os aspectos relevantes e positivos dos envolvidos no jogo da sedução são desfilados e daí sai um beijo, um abraço e outras coisitas.

Umas semanas e tudo isto vai se puindo, com a histeria dos telefonemas, torpedos, e-mails ou visitas intempestivas.

Não são dois ou três destes expedientes, mas inúmeros e diariamente.

Sem falar no famoso questionamento: você me ama?

Ora, como responder a isto com duas semanas ou um mês de relacionamento?

Quero sair, mas, com efeito, quando chego num bar, numa festa, ou qualquer lugar outro e me apresentam aquela mulher maravilhosa, já sei o que esperar a curto e a médio prazo ao menos e fico tentadíssimo de perguntar-lhe como será, caso “role” alguma coisa, dali algum tempo.

Haverá alguma surpresa?

Será uma mulher diferente?

Será ela minha alma gêmea, da qual o “que venha é bem vindo”?

Dirão alguns: ele não se apega a nada; ele é o problema; os defeitos que vê nas mulheres ele os tem!

Pode até ser. É possível, mesmo, que não tenha achado a mulher ideal, embora tenha conhecido muitas, mas, até agora, nenhuma escapou do estereótipo “saiu comigo, tem que me agüentar”.

Por enquanto, na minha imperfeição, como não dou telefonemas insistentes, não gosto de e-mails, torpedo nem pensar e, por fim, porque penso que amor se mostra e não se fala, vou produzindo uma existência anacoreta, ainda que sem castidade, mas ressabiada e cautelosa, desejando conciliar desejo, paixão, talvez até amar, com um pouco de sossego e privacidade.

Assim, minha sorte com as fêmeas tornou-se azar, porque de tanto tê-las julguei conhecê-las e por julgá-las espaçosas acabei condenado, pela minha ciência, à auto-exclusão.

Quero as mulheres mas não suas obsessões.  Não está faltando “homens no mercado” como dizem as dignas e desejadas fêmeas, está sobrando homens “escaldados”.

ROCIO DA FELICIDADE

September 20th, 2006 by vellozo

Não olvide desse rocio de felicidade

Que cai sobre nós, uma vez, ao menos, por dia,

Na madrugada do nosso bem-estar. 

Não deixe a tristeza calar a alegria,

Não permita a infelicidade anoitecer teu dia. 

Somos seres mágicos,

O amor … nossa magia,

E, de nossos momentos trágicos,Nada reste, nem nostalgia.

O egoísmo: Brevíssimo exame da ataraxia - 2a parte

August 11th, 2006 by vellozo

 

Capítulo 10: 

O SABER 

 

Não se poderia abordar o egoísmo, sem a devida atenção ao SABER. Evidentemente que aqui se fundirá os conceitos de saber e conhecimento, posto não se pretender abordar a sabedoria, instinto, conhecimento atávico imemorial, que se manifesta no ser humano independentemente do conhecimento e que traduz o bom senso, a arte de trabalhar com as coisas humanas, sempre as conduzindo a um vector satisfatório e que poucos privilegiados detêm, os quais, eventualmente, tendo tido acesso ao saber, enquanto conhecimento epistemológico, puderam converter a intuição prodigiosa em ensinamentos imortais. Tratamos aqui do saber das ciências. Como a sabedoria, a ciência é uma manifestação da natureza, somente que traduzida em conceitos e resultado de uma observação, que ao contrário da sabedoria, conforme a acuidade do observador, altera-se com o passar do tempo, ora complementando os conceitos criados, ora os contrariando e ora criando novas teorizações. Tem o mérito de tornar aplicáveis mecanismos naturais nem sempre ao alcance dos indivíduos e o demérito de esgotar fontes igualmente naturais e ser incapaz de substituí-las, porque não cria, somente interpreta. 

10.1: O egoísmo do saber divide-se em dois, sempre malus ambos

1) A não difusão do conhecimento ou, em outras palavras, a retenção deste;2) A não mensuração dos efeitos do uso do conhecimento, incluindo a desnecessidade da especulação de determinadas manifestações da natureza. 10.1.1:            A não difusão do conhecimento ou sua retenção: 

É indiscutível que descobertas e estudos trazem largos benefícios, pelo menos ao ser humano, que tem assistido a uma melhora na sua condição de vida, especialmente na área de saúde, aonde a cada dia uma velha doença, um velho flagelo vem sendo debelado (embora todo dia apareça um novo vírus ou bactéria – como se o cientista, para não perder sua posição, criasse a nova doença laboratorialmente – mera especulação), onde os alimentos têm tido uma melhora nutritiva (resta saber os efeitos na natureza), mostrando-se um conforto cada vez maior (pelo menos para uma certa minoria).Tudo isto e muito mais decorre do conhecimento, mas este conhecimento tem sido efetivamente ensinado, permitindo que o neófito opte por esta ou aquela senda, ou é imposto a um determinado setor do saber, mínimo e necessário à manutenção dos grandes sabedores?O comportamento do ensino profissional e científico superior autoriza afirmar que a imensa massa de despreparados egressos das academias vem sendo vítima exatamente dos egoístas do saber, que muito embora detenham parcela da ciência a que se dedicaram, usam-na para manutenção de seu status e para afastamento de possível concorrência, o que, aliás, viria em melhorar a qualidade das ciências, represam seu conhecimento, resultando disto, como na propriedade, que muitos a necessitam, mas poucos a detêm.  

Cabe alinhar, aqui, a arrogância da erudição, a exigência de um determinado repertório – que é dominado e deveria ser entregue pelo sábio – para que se possa entrosar com determinada comunidade científica. Há sinais próprios, linguagem especializada, fontes não-reveladas, conjunto indicador de uma soberba no saber que o exclui, que o torna exceção, veneno, quando deveria ser antídoto. 10.1.2: A não mensuração dos efeitos do uso do conhecimento 

Sob os vários argumentos, o homem explorou a natureza, a detalhando em métodos, conceitos, teorias. Transformou seus elementos e gerou subprodutos, que embora não possam ser chamados de artificiais, posto que tudo tem uma só matriz, a natura, são danosos a toda a forma de vida, em decorrência de que houve a combinação de elementos antes neutros e posteriormente reagentes; a individualização de elementos neutralizadores e, por fim, houve a manipulação dos meios de vida e de harmonia naturais, revelando a ciência substâncias e resultados que a lógica natural quis ocultar (p.ex. certas formas de radiação, produtos agrícolas transformados, venenos, gases, etc.).Ora, se tais combinações e bens não estavam à disposição dos seres, foi justa a sua busca, foi medida a conseqüência de seu uso?Exatamente nesta indagação conhecemos o divisor de águas entre a especulação filosófica e a científica. A primeira, examina a essência, os valores e os fins a que se destina o objeto do estudo, sugerindo sua utilidade para o conjunto da vida, a segunda, a científica, é análise de meios que justificam fins, é inconseqüente quanto à apreciação contextual do objeto em revelação e aprende somente através da aplicação do sistema causa e efeito, insensível aos danos e seqüelas que possa ocasionar.Como exemplo simples da falta de medida, do elogio ao ego e ao possuir, podemos citar a devastação vegetal, a poluição ambiental (visual, sonora, atmosférica, etc.), os problemas com a camada de ozônio (talvez, até, a síndrome da imuno-deficiência adquirida). Maior egoísmo, maior referência ao individualismo não se pode encontrar, senão em referência ao manipulador do meio, que com seu conhecimento logra dominar o poder público, o econômico, a família, a estrutura social enfim. 

10.1.3: A erudição é egoísta! 

O possuidor do saber além de não dividi-lo exige, egoísta e arrogantemente, que os demais possuam ou devam possuir seu repertório, isto é, sua massa ou volume de conhecimento e estudo.Tem como ignorantes aqueles que não seguiram suas mesmas veredas do esclarecimento e da elucidação e quando se propõe a ensinar – o que efetivamente é raro – traz máximas e a presunção de que os demais devem ter um mínimo domínio dos mesmos temas e como não é possível que todos pensem da mesma forma, é tomado de indignação e recusa suas fontes, até porque, as designando, corre o risco de deixar de ser a deidade que se imagina.De tal maneira é que a erudição se encastelou nas academias e nos pequenos círculos, aonde todos imaginam que o mundo é o que pensam e escrevem e como poucos pensam e estudaram seus assuntos, são eles mesmos sóis de suas sociedades e guardam a palavra desconhecida ou esquecida do grupo para um porvir em que os demais, aquecidos por suas luzes eruditas, sejam dessedentados de sua alheação.Não há humildade no saber, mas há egoísmo, egotismo e vaidade.O trono do egoísmo é mui bem ocupado pelo eruditismo. 

 

Capítulo 11: 

O ESCRITOR 

A manifestação do escrever, no ser humano, nada mais é do que a exteriorização de sentimentos e vontades já moldados e que tem fincas no íntimo de quem escreve, que quer a todo custo dar o que tem aos seus semelhantes, dês, é claro, que receba algum reconhecimento pelo que fez,  seja admirado, crie escolas, inspire novos escritores, seja citado, objeto de redação ou de tese.Tudo isto é egoísmo, como, aliás, socorremo-nos, reiterando o antes já dito, tudo que promana do bípede pensante tem forma de auto-satisfação e, portanto, de sustentação de seu ego.Como nas linhas de Dostoiewski e seus perturbados e perturbadores personagens, desce com seu modo tredo de pensar aos infernos dantescos, procura o nirvana, se acomoda
em Nossos Lares Espirituais, adentra por um buraco negro, faz pacto com o demônio, descreve guerras, onde deuses intervêm, filosofa sobre a conduta humana, sobre a vontade, o estado, a política, a ciência, destrói (ou tenta) o conteúdo de tudo o que foi escrito, tenta recriar novas linhas de pensamento, diz o que pensa, ofertando ao mesmo tempo egoísmo bonus e malus e é inevitável, pois a dualidade é marca registrada da mulher e do homem, que o escritor ajude alguns, prejudique outros e crie, ainda, a categoria dos invejosos ou insatisfeitos, aqueles que concorrem, por concorrer, para mostrar sua própria força, somente pela elevação do deus EGO.Não concebemos a qual setor de nosso egoísmo serve esta crítica ao homem, este elogio ao egoísmo.Sabemos, apenas, que indignados com tantos vícios sociais, tantos desvios de conduta, tanta ausência de humanidade, resolvemos bradar, bem alto, toda a indignação com a manutenção dos sistemas de poder. Claro, isto é repetitivo, desejamos ser repetitivos, a memória dos poderosos, dos GRANDES EGOÍSTAS, é efêmera e somente são avivadas para realizar suas vinganças, o que também é egoísmo, ou para obter algum outro valioso bem.Queremos, é lógico, sejam lidas nossas reflexões, queremos, é lógico, sejamos respeitados por opiniões lançadas, mas se não o for, não pense leitor que deixaremos de ser egoístas, ao contrário, continuaremos. Nosso propósito, porém, nos abrindo à análise e ao senso crítico das pessoas, é despertar-lhes algum sentimento, de repulsa ou de atração, marcar-lhes a área sensível do córtex, para que os egoísmos sejam mais universalizados, para que, embora não esteja em nosso alcance o amor ou o perdão, em nome do temor de agressões a nós e aos amados, em defesa de nosso próprio egoísmo, abramos espaços aos hipossuficientes de saber e de poder.O escritor a cada linha está, obviamente, pensando na reação do leitor, ora insuflando-lhe o ódio, noutra instigando-lhe a curiosidade, podendo entristecê-lo, esperançá-lo, desesperá-lo, torná-lo louco ou são, abrir-lhe os horizontes ou inumá-lo nas trevas, que poder…, que poder egoístico nas mãos do escritor.Qual Zeus lançador de raios, o escritor retém tanto poder que a história, embora seja feita pelas obras e cicatrizes deixadas pelos poderosos políticos e econômicos, vêm sendo registrada e modificada ao talante do egoísmo de quem escreve e sob a sutil poesia ou o veemente protesto aqueles poderosos são destruídos, humilhados, substituídos, anônimos tornam-se heróis, estes vilões, ou vítimas, traidores em idealistas, idealistas em fanáticos e daí por adiante.Nada impede a quem escreve, de escrever, nem a censura, nem a perseguição, muito menos os críticos literários, que instilam no espírito do leitor a vontade de buscar o conteúdo de um texto execrado. Que egoísmo poderoso, que poder de egoísmo. 

 

 

 

Capítulo 12: 

A IMORTALIDADE 

 

A que ente superior serve o Deus Ego? Sem dúvida nenhuma, na hierarquia das deidades íntimas que determinam o comportamental humanóide, grassa imponente, com a memória adâmica, a DEUSA IMORTALIDADE!Os egoístas, os grandes e os cotidianos, agem na realização de seus propósitos, em seu benefício, em busca de um certo conforto e poder durante sua existência curta ou trabalham na manutenção autofágica de seu egoísmo imaginando-se imortais?A resposta, de singelíssimo deslinde, direciona-se na errônea certeza de que vamos gozar dos bens, do poder, do conforto, das alegrias, eternamente, não fosse assim, para que tanta conquista, tanta competição, tanta mentira, tanto ódio, tanta guerra, para que tudo isto?Houvesse um meio de indicar ao homem como se esgota rapidamente a sua vida e talvez, ainda por egoísmo, não perdesse tanto tempo, em tantas frentes, em tantas lutas.Nenhum egoísta, especialmente os mais profissionalizados, pararam para pensar que, ou se extinguirão para tudo que está à sua volta, ou tudo que está à sua volta se extinguirá para si.Não creiam em qualquer perenidade, lembrem de Fausto, tendo condições de lidar com o poder ilimitado, ele mesmo foi consumido por este poder e indesejou a imortalidade. Grandes obras, monumentos, dinheiro, livros, podem ser imortais, aliás, a imortalidade é bem típica daquilo que é inanimado, que se não tem vida, não pode morrer, mas o egoísta, vive, sofrendo, é verdade, mas vive, sofre, não pelo temor de perder o que já tem, posto não ter a noção de sua efemeridade, mas por conseguir mais e mais, incessantemente, buscando engordar, seu já cheio de estrias e celulite, egoísmo, mas se tem força vital, esta chama se extinguirá e com a morte toda a sua busca será em vão.Há o argumento de que se tenho de morrer, porque não viver bem? Concordamos com tal, mas reperguntaremos: o que é viver bem?Seria dominar as vontades alheias, seria lutar sem tréguas para manter o poder, trair amigos, unir-se aos vis, comer das melhores iguarias, para virarem massa fecal, beber das melhores bebidas, para virarem urina ou bílis, ter um herdeiro que destrua tudo o quanto com muito esforço conquistamos? E todos padecem nesta conquista, construir, como Mausolo, um imponente jazigo para morrer, ovacionando a morte, como símbolo da imortalidade e se jactando de que será enterrado com dignidade e honras, para virar produto fétido e alimento de vermes, para dali em algum ponto do futuro ser referência como ossada para algum estudioso, que talvez até consiga a autorização de algum poderoso para fazer testes científicos nos restos da marca triste da existência?Que conforto, que bem estar mais confuso!Viver bem é não ter que sofrer continuadamente pela luta de um poder descontínuo.É viver um amor, enquanto houver amor, é sorver alguma coisa, sem depender dela para o cotidiano, é cercar-se de lealdade e de admiração, é ter a noção da mortalidade, para que cada dia seja apreciado com mais intensidade, é valorizar nosso egoísmo a partir desta, para que sejamos mortais na plenitude e não supostos imortais na conquista.Que desilusão ao GRANDE EGOÍSTA e faço questão de contribuir para isto, revelar-lhe que tudo, tudo o que realiza não poderá ser indefinidamente por ele usufruído, pois morrerá, e mais ainda, poderá morrer no auge de suas aquisições, jovem e quem sabe, ali no leito mortal, na negação da imortalidade que imaginava ter, após todos os tormentos que ele próprio gerou, tome a consciência de que as realizações concretizadas, antes de proporcionarem um viver bem, serviram, isto sim, para ocupar todo o seu curtíssimo tempo e siga assim sôfrego para o Hades, invejando todos os seres que de alguma forma prejudicou, esquecendo-os, traindo-os ou ignorando, tratando-os como reles mortais. 

 

 

 

Capítulo 13: 

A NOVIDADE 

 

O egoísmo tem momentos brilhantes, rico em detalhes e requintes, dependendo do egoísta, sem dúvida.Igualmente, terá ocasiões de enorme frivolidade, de cansativa futilidade.Uma destas oportunidades, no seio da humanidade, está ligada à novidade.Novidade, diga-se, no contexto da exacerbação do ego, do egoísmo. Inovação, no sentido subjetivo de seu acontecimento no mundo fático, uma realização anímica do egoísta, plasmada à existência concreta, por través de suas condutas e sua ótica.Indica-se, desde o primeiro momento, assim, que a novidade, de que ora se fala, não é aquela característica de originalidade para o conjunto do grupo social, mas tão somente ao legítimo detentor do egoísmo.Desta maneira, o egoísta, dono de suposta nova idéia, de novo bem, corpóreo ou não, busca apresentá-lo aos seus semelhantes, pleno de orgulho pela aquisição, elabora demonstrações, oferece detalhes, aguarda elogios.Ignorado, pensa serem seus juízes ignorantes, ovacionado, julga-se o ente superior da comuna.Valoriza a sua novidade, desmerece a alheia.A cada circunstância que lhe proporcione um momento, geralmente inoportuno, de expor a novidade, busca cercar-se de supostos neófitos em relação à coisa, ele supõe sejam neófitos, e qual hierofante, numa iniciação, encaminha seus discípulos aos estranhos caminhos do imaginário novo.Dia-a-dia alguém, nalgum lugar, está construindo, todos estamos construindo: uma irrealidade a nos orbitar, e para que tudo isto?Indissociável das nossas relativas verdades, está a necessidade do inédito, do inovador, do novo, que permite um lançamento, ainda que íntimo, psicológico, do egoísta, do homem, ao patamar de destaque, referência ligada ao fato de possuir, de reter algo que naquele medíocre momento nenhum outro, encontrado no mesmo medíocre momento, conheça ou tenha, resultando desta imaginária vantagem, um desequilíbrio no mediano grupo, em favor do por ora mais egoísta, o qual se nutrirá da pobreza dos demais e sua própria. 

Capítulo 14: 

O AMOR 

 

Platão magistralmente formulou inúmeras modalidades de amor. [1]Com efeito, nos Diálogos, em Um banquete, pela fala de Fedro indicou ser o Amor o mais antigo dos deuses, “o mais digno de homenagens e o que mais poderes tem para conduzir os homens à conquista da prestança e da felicidade, na vida como na morte. Também di-lo, por isto, sem pais[2]. O personagem segue indicando que na juventude não há “maior bem do que um amante leal” e esse modo de amar superaria as honrarias, a riqueza e outra força qualquer.O arguto Pausânias, na seqüência, prega que o Amor “não é um só”, registrando que nem todo “amor é decente”. Pode ser vulgar e voltado ao culto do corpo seja de homens ou de mulheres. Em contraposição, a calma e a continência nesse amor físico podem conduzir a virtudes na relação.Erixímaco, o médico, continua o debate observando que o amor não se aplica somente à alma humana, “mas também a outros seres e em relação a muitas outras coisas, aos corpos de todos os animais e ao que brota da terá e, por assim dizer, a tudo que existe”.Aristófanes prossegue palestrando sobre o Poder do Amor, examinando a natureza humana – aqui temos a passagem sobre os três sexos e os seres circulares ou esféricos e o nascimento do amor restaurador, porque cindidos os seres que continham os princípios feminino e masculino num só corpo, procuram a outra parte para se complementarem . Muito bem para Platão.Procuramos algo mais simples. Tal como a filosofia, egoisticamente, pretendemos falar das relações de mulheres com homens, de homens com mulheres.Ingenuidade; pensamos conhecer o tema.Pois bem!Nascemos, somos educados da forma que somos educados, já foi dito antes, e, afinal, com os impulsos hormonais ou as pulsões psicanalíticas, desejamos um companheiro ou companheira.De todo recomendável conhecer a Metafísica do Amor de Artur Schopenhauer, com a qual concordamos em termos, haja vista que embora seja verdadeiro que as pessoas se aproximam pela necessidade sexual, havendo subliminarmente um grito primal da natureza pela preservação da espécie, cremos que é mais tênue o controle da natura sobre nossas escolhas, predominando, portanto, o individualismo e não uma sutil força preservacionista da raça como afirma o filósofo.Para a tese em curso, importa, porém, a seguinte assertiva do pensador:O egoísmo é tão arraigado nos homens, que os fins egoístas são os únicos com os quais se pode contar com segurança para estimular a atividade de um ser individual. É verdade que a espécie tem sobre o indivíduo um direito anterior, mais imediato e mais considerável que a efêmera individualidade; entretanto, quando é necessário que o indivíduo aja e se sacrifique pela manutenção e desenvolvimento da espécie, pode ocorrer que à sua inteligência, orientada pelas suas aspirações individuais, não seja compreensível toda a importância da questão, e esse indivíduo não proceda, então, de maneira adequada. [3] 

14.1: O desejo da mulher ou desejo feminino 

Com algumas diferenças entre as mulheres, quanto ao máximo que esperam do par, o mínimo se relaciona com algo de segurança material, alguma satisfação sexual, procriação e fidelidade.Vamos por partes.Não se ignora as questões preliminares, a sensualidade, a atração física ou os atributos intelectivos, os quais sejam o móvel da aproximação da mulher face o homem. Tudo isto existe e ainda bem.Atendidos os dados chamativos que sugerem a aproximação das pessoas, passa-se, então, ao projeto ideal de realização pessoal. Em outras palavras, ao elogio do ego.Será insuficiente ao homem ser bonito ou inteligente, caso demonstre incapacidade de gerar riquezas. Sem comida na mesa, não há felicidade, e a relação se desgasta.Satisfação sexual. Ah, eis uma complicação. Mesmo havendo suporte material, talvez o casal não converse (e, em geral, não conversa), dissipada, daí, a novidade do toque, dos mistérios, virão as desculpas e, finalmente, as camas separadas. Neste ponto as mulheres calam-se mais. Não reclamam aos maridos e criam uma enormidade de desculpas.A procriação é utilizada de três formas. Na empolgação da descoberta sexual do casal, na inércia do relacionamento, como se fosse um dever ou, finalmente, para salvar a união.Fidelidade é o refrão (em geral) feminino. Traduzindo melhor. No nosso meio social é intolerável que o homem ou a mulher tenham relacionamentos extraconjugais. Sob o manto de desrespeito, descaso, desamor com a ligação entre uma mulher e um homem, afirma-se que a sensualidade, a vontade, a pulsão devem desaparecer. Como?Sublimação é o que combina com fidelidade!Fidelidade funciona se houver patrimônio, satisfação sexual e diálogo. Como é muito difícil esta mágica combinação, resulta que a sublimação é muito mais forte do que a condição humana. Por isto a fidelidade como condição de felicidade é grilhão, por vezes, difícil de ser suportado.Louve-se as mulheres por pregarem a fidelidade. Aqui, uma derradeira observação, aparentemente as mulheres mostram-se satisfeitas com um único companheiro e chamam a isto de amor (mais a bagagem de emoções).   

14.2: O desejo do homem ou desejo masculino 

 

O homem não quer segurança patrimonial, quer procriação, satisfação sexual e fidelidade para se unir.Realmente sobre a questão material é mais irresponsável. Desejou a mulher, desde logo quer se unir com ela, ter um fieira de filhos, sentir-se sempre saciado sexualmente, não admitindo possa a mulher deitar com outros varões.Todas as vontades do homem são desvios educacionais.Evidente que não é errado desejar sexualmente a companheira, ter filhos e querer que ela seja somente sua. A problemática está em que face os mimos em sua educação não valora o custo material de um tal relacionamento, não sabe que a mulher tem suas necessidades e sobre a fidelidade, aprendeu, tão só, a fêmea é que não pode conhecer outros varões, mas que a esses, no campo sexual, nada está vedado. A isto chama de amor (mais a bagagem de emoções). 

14.3: A mulher e o homem : o feminino e o masculino 

Diferentes são os desejos destes seres, ou diversas são as reações destas tendências que teriam sido criadas para se complementar.Parecem, até, formas de vida ou modos de agir incompatíveis.A questão, no entanto, é mais sociológica que biológica e gira em torno, especialmente, da satisfação sexual. Não há dúvidas neste sentido.Daí a dificuldade de conceituar-se amor. Foge do nível médio dos humanos o amor entrega, o amor idílio, a unilateralidade. É indispensável a contraprestação, por isso o amor é egoísta.Amor, enfim, como o romântico discurso da infinita cumplicidade, do dar sem esperar, é vã palavra, pois inexiste. Não se trata de pessimismo, nada se tema. Disso, diz-se, isto sim, como verdade indiscutível. A coisa é singela. É claro que a mulher se fixará especialmente num varão, ocorrendo o mesmo com ele. Nada é indicativo, entanto, que não se atrairão por outros homens ou mulheres, ainda que não em mesma intensidade, mas sempre sentirão a necessidade de nutrir certas lacunas. Ninguém preenche tanto a vida de outrem!É egoísmo querer outras experiências, mas é egoísmo evitar que aqueles que amamos as tenham. Não há solução para este impasse!Ora, esse comum egoísmo de amores femininos ou masculinos, sejam mulheres ou homens num ou noutro papel, possui também a faceta lúdica, de brincar com quem se ama.De modo objetivo, dizemos nada faz mais bem ao gênio, ora angelical, ora maligno, chamado Ego, de saber somos amados por alguém e, aqui, amado, significa a relação com o outro princípio, o feminino ou o masculino.Quando descobrimos, nos revelam, intuímos do amor por outro ser, a nós, estejamos ou não tendentes a corresponder, inflamos, verdadeiramente, com esse ar olorizado pelo sentimento alheio – por nós – ah, que magia, a potestade é nas nossas mãos e jogamos com esse amor estrangeiro, insinuamos, alguma vez, correspondência, carinho, mas predomina, entretanto, o dulcíssimo sabor de outra pessoa sentimentalmente dependente.E o ego, o amor egoísta, explora esse sentir, dá-lhe doses, normalmente parcas, para não saciá-lo, outras vezes nega-lhe cuidados, submete-o à abstinência para vê-lo sofrer, temer a perda, nem que seja a perda da indiferença cínica. Permite um certo conversar, dá sinais de um dia, quem sabe, ser possível algum elo, alguma amizade ou relação.O Egoísta Amoroso, caso não caia nas armadilhas do Amor Puro – que é muitíssimo astuto, matreiro e raro -  vai gozando, fruindo o amor peão, lançando-o pelo tabuleiro da auto-satisfação, sujeitando-o aos bispos, torres, cavalos, rainha ou rei de seu temperamento.O amor, se de um só, na busca do complemento, da formação do par, sofre como um fraco espírito, duende, elfo, anjo, inerme às artimanhas do poderoso Ego. 

 

Capítulo 15: 

A FILOSOFIA 

O que é a filosofia senão a arte de estudar o ser egoísta e estimular sua existência?Explicamos.Desde Parmênides (para não retrotrair mais) com o que se ocupa a filosofia?Teorias as mais variadas buscaram justificar a existência, o ser, o dever-ser, a moralidade, a sanção, o empírico, o apriorístico, classificar as coisas em vegetal, animal ou mineral, buscar a verdade, a verdadeira ou a certa, tudo isto para que?Num antropomorfismo inevitável, para enquadrar o ente máximo da natura no contexto da vida - o ser humano!Ora, a filosofia é o hino do egoísmo!Na verdade, por óbvias circunstâncias, dedicou-se somente ao estudo do homem, o que podia e o que não podia, seria belo ou feio, bom ou mal, num ciclo maniqueísta, por trás do qual, o pensador pretende que todos louvem-no, seja porque morre por seus ideais, seja por mostrar-se capaz de renegar os antepassados, criando (ou recriando) concepções para seus assemelhados.A indagação - O que é a verdade? - repetida por tantos, deve ser assim respondida:Nós, os seres humanos, não somos tão relevantes para a natureza, ao ponto de merecermos graduações de dignos ou de indignos, de justos ou de morais. Somos mais uma espécie a vagar num dado momento da história universal.Precisamos criar conceitos, concepções, para vivermos? Saber o que é moral e ético é tão relativo quanto a nossa vida!Tudo o que é concebido, o é dentro de um determinado modelo, para acomodar um certo fim. Isto é egoísmo.Não seria melhor filosofar imaginando que somos mais uma peça no plano existencial, na manutenção da vida? Que funcionamos simbioticamente ou em relação de mutualismo ou comensalismo com outras espécies e coisas? Na realidade, o pensar humano é predatório para o próprio homem, posto que se à forma não se acomodar a peça (o ser), qual a cama de Procrustes [4], inevitavelmente iniciar-se-á um processo de exclusão ou de adequação.Não se diz aqui que de todo é desnecessário o estudar o homem, ao contrário, precisamos nos compreender em nosso próprio momento histórico. O que defendemos, porém, é que mesmo toda esta compreensão não tem sido suficiente para controlar a sanha humana de conquista e de poder. A história registra que nós, os seres humanos, não nos detemos em nossas metas, mesmo que repudiadas. Daí a compreensão de que a filosofia deve estar errando em algo, porque mesmo se admitindo que nenhum compromisso tenha com o homem concreto, posto que se concentra no homem ideal ou virtual, é verdade, por essa mesma razão, que é extremamente egoística e talvez possa vir a servir para esse mesmo homem, quando passar a estudá-lo, não a partir dele mesmo, mas considerando-o como partícipe (e não autor) da realização das coisas.Parece que a preocupação de perceber as coisas e compreendê-las, seja a partir do conhecimento ínsito do objeto, pelo pensar, seja pelos sentidos e sua correlação com a coisa, circunstância a levar à conclusão de veracidade do que se vê ou sente, serve tão somente para consolar o homem, fazendo-o pensar em sua egoística superioridade em relação a tudo o mais que possa existir no orbe.Ora, não se revela nessa mesma medida conduta em torno do ego?E mesmo que se diga que isso se dá para o aprimoramento do ser humano, o que não duvidamos, é forçoso reconhecer: esse tal aprimoramento prestará somente a semelhante ser.Não se mostra claro, após milênios de existência do homem e suas meditações, qual o benefício ou utilidade para a manutenção de nossas reservas animais, minerais ou vegetais, ou mais ainda, é absolutamente obscura a validade das construções em torno do homem quanto ao fim a que se prestam, pois o saber adquirido não lhe tem melhorado o modo de viver, ao contrário, tem se mostrado modo de acentuar-lhe as indagações e de enredar mais seu comportamento em complicadas proposições, as quais possuem, no entretanto, somente a mesma mensagem : é o melhor, é o único, é o escolhido, domine o que está a sua volta, pode guerrear, pode ousar.Parcial conclusão: Para a elevação do homem o filosofar ou o querer conhecer é plenamente justificável, mas como tudo quanto for absorvido o será tão só em benefício da existência dessa criatura que se diz pensante, não se poderá recusar a constatação da parcialidade do bem que possa trazer todo esse esforço, que melhorará, se melhorar, unicamente a convivência humana, talvez até em detrimento do todo à sua volta, apesar desse todo - que é ignorado - ser a base de sustentação de qualquer ser, inclusive aquele que pensa. 

Capítulo 16: 

OS ESPERTOS 

No meio de todas as categorias e classes sociais, e, portanto, entre todos os tipos de pessoas (inclusive os egoístas), destaca-se um especial egomaníaco, grassa o ególatra por excelência, que apelidamos de “esperto”.Mas qual defeito (qualidade?) possui o esperto para figurar como egoísta dentre os egoístas?Trata-se da sua inoportunidade desbragada, pronta para, em todas as ocasiões, gerar desconforto a alguém, em benefício de seu próprio comodismo, de sua ignorância, agressividade etc.O esperto se manifesta em qualquer aglomeração humana: 

·                    É o que edita uma lei para a conveniência de seu grupo, sem mensurar a agressão à democracia que lhe conferiu potestade; ·                    É o que atravessa, no trânsito, um sinal fechado, para não ficar poucos segundos parado; ·                    É o que intercepta uma fila, pondo-se à frente dos demais que já nela aguardavam; ·                    É o que se aproveita das fragilidades institucionais para obter favores em detrimento daqueles que conquistam seus espaços meritoriamente; ·                    É aquele que abusa da paciência de seus vizinhos, com excessos vários capazes de retirar o sossego alheio, sejam pela sujeira, pelo modo ruidoso de ser, por deixar o portão aberto, reter o elevador em seu andar, não devolver o carrinho de supermercado à garagem, fumar em locais fechados (elevador, salas etc.); ·                    É aquele que se curva e aceita ajuda dos poderosos, mesmo em prejuízo de terceiros. 

O esperto nada mais é do que uma pessoa moralmente corrompida, arrastando-se em sua frustrada e vã existência na busca de um lugar que é incapaz de conquistar por meios confessáveis, vivendo parasitariamente no ventre da sociedade, evocando hinos ao egoísmo. 

 

 

Capítulo 17: 

OS MOVIMENTOS 

Modo curioso do ser humano realizar seu egoísmo está contido nos movimentos de massa.Com efeito, ao longo de seu histórico comportamental podemos conferir que a pessoa humana tem acalentado uma incontável série de pretensões tais como mudar o eixo do poder político, isto é, tirar um governante tirânico para colocar outro justo, separar seu território do resto daquele pertencente a um determinado país sob o fundamento de que as bases culturais são incoincidentes, ou, simplesmente, para assumir tal poder. Ora, ainda que se possa encontrar no inconsciente coletivo alguma uniformidade que mantenha o grupo unido em seus projetos, manifestações, correntes de pensamento e ações propriamente ditas, a realidade é que no âmago de cada partícipe há uma mensagem individual, uma chama de anseios, de desejos de auto-satisfação e estes são os efetivos combustíveis provocadores da mobilização de cada componente do grupamento e, oxalá, se todos almejarem ser felizes, o egoísmo celular, torne-se um corpo de felicidade, que é pautada, entanto, na egoística força motriz que é a individualidade.Movimentam-se os homens, de igual maneira, sob a justificativa de que seus semelhantes são explorados, vilipendiados, menosprezados em suas mais básicas prerrogativas, chamando a isto de direitos humanos. Pois bem, mesmo nessa seara, a leitura final que pode ser feita é a de que os protetores dos direitos humanos (tal qual os detratores) não estão pensando exatamente naqueles todos excluídos, hipossuficientes e desprezados, não, protegem-nos por um mecanismo de transferência, ou seja, não querem no porvir serem as vítimas da opressão, da omissão, da violência, da ignorância. Querem, isto sim, ser plenos de bem-estar, de alegria e de conforto e, por isso mesmo, vislumbram que se não erradicarem as mazelas realizadas contra as pessoas desprotegidas, os ventos de procela poderão soprar contra suas vivendas. O sumo, pois, dos direitos humanos, nada mais é do que o egoísmo.No mesmo vértice do tratamento que se dá aos direitos humanos, podemos anotar que o trato aos interesses difusos, como por exemplo, a proteção à natureza (flora e fauna), encontra-se menos preocupado quanto ao esgotamento dos recursos naturais, ou se tal animal desaparecerá ou se tal planta se extinguirá, do que com o próprio bem-estar das pessoas.O anseio de perpetuar a natura tem a percepção de que o caos ecológico não poupará a raça humana e, logo, sendo indispensável à nossa sobrevivência a do meio-ambiente, tomou-se de dores o homem por ele, porém sempre vislumbrando sua melhor condição e não, exatamente, a do meio-envolvente e, nesse sentido, não delira a pessoa humana, nem em face da natureza e nem tem forças e capacidade para isso, do seu velho egoísmo, que se manifesta como um tipo de instinto, como seria o faro canino ou a visão felina. 

 

 

 

 

Capítulo 18: 

A PALAVRA 

Semiologia, semiótica, “do verbo se fez a ação”, estabelecer o discurso para criar a práxis, ação comunicativa, tudo está em relação ao uso da palavra e o que pode ela significar.Agostinho, o Santo, no trabalho “O mestre”, demonstra com eficiência as armadilhas da palavra e o ser humano tem-na como seu principal instrumento de vida social e, logo, trata-se da grande ferramenta de seu egoísmo.A polissemia e as figuras de linguagem podem nos oferecer a complexidade da teia lingüística e os torvelinhos em que somos envolvidos consoante o uso da palavra.A palavra é conhecida como significante e pode assumir vários significados, e desse modo, sequer podemos estar seguros de que proferido um significante, tenha quem o proferiu a mesma compreensão do sentido de quem interpretou a palavra, dita ou escrita.Vamos além, haja vista que a polissemia é cotidiana e banal, e a incompreensão pode estar ligada mais ao desconhecimento do destinatário do que o indevido uso do remetente, ou pode relacionar-se com o interesse do emissor da mensagem de dotá-la de incerteza, ambigüidade, ao efeito de submeter o receptor o seu jugo ou levá-lo ao erro. Estas duas situações, per se, demonstram quão poderosa é a palavra, não pela força da difusão da idéia que contém, mas pela multiplicidade de idéias que pode levar e os variegados e dúbios sentidos que pode produzir. 

Em mãos egoístas vem sendo a palavra potente artefato de auto-consagração e de destruição, bastando, ao hábil egoísta apoderar-se da polissemia.Nesse mesmo viés temos os tropos, os “ornamentos do discurso”, mais conhecidos dentre os mortais como figuras de linguagem. 

Apreciemos: 

METONÍMIA - “consiste na troca de palavras, isto é, emprega-se uma palavra por outra e esta lembra a que foi omitida. Traduz íntima relação entre o significado que se deseja transmitir e o significado usado para expressá-lo”. Ex. Sorver uma garrafa de vinho 

SINÉDOQUE - “designa uma realidade por outra de extensão diferente, isto é, emprega o menos pelo mais ou vice-versa. Constantemente, seu âmbito de ação colide com a Metonímia e, não raro, à significação da mesma palavra se aplicam os dois tropos. Exemplo: a palavra vela pode ser tomada como ‘parte’ do barco (Sinédoque) ou lembrar o barco (Mitomania)”.  

METÁFORA - “ocorre quando se quer dar à idéia uma forma mais convincente ou ampla, através de um significante analógico, podendo esta semelhança ser física (ele é um tigre em defesa da família) ou moral (ela morre de ciúmes)”.  

CATACRESE - “é das figuras mais importantes. Ocorre sempre que uma palavra assume definitivamente o sentido de outra, pela inexistência de um significante específico para o significado que se deseja expressar. Assim: 

Caderno - significa quatro folhas.Livro - traz o sentido de livre, solto.[5]             Bem se pode verificar como complicado se torna o mundo; expressões diversas para significar coisas ou eventos. E a própria complexidade da nomenclatura: sinédoque, metáfora, catacrese etc.A estrutura labiríntica da língua vem demonstrar evidente compulsão humana em desavisar a realidade, criando diversificados modos de distraí-la e tudo para satisfazer sentimentos particulares de criar esferas personais, onde poucos eleitos, estupefatos pelos ardis lingüísticos, dobram a cerviz ao ídolo palavra e, muitas vezes, para nutrir o egoísmo, de modo tredo vitupera o egoísta a todos com sua logorréia, em destemperada verborragia, desapegada de outro sentido que não aquele de favorecer de algum modo seu bem-estar de manipulador lingüístico.Os sábios, os poderosos, a mídia, o escritor e todos os demais se valem da palavra para ativar seu egoísmo e a desdobram em tantos sentidos e criam tantas figuras, que já não se pode dominar ou utilizar, com mínima segurança, a ferramenta mais básica do social que é a linguagem.Qual então, onticamente falando, a axiologia da palavra?Difícil, impossível resposta, é dizer, eis que os valores estão jungidos à ética dos grupos ou àquela individualizada deste ou daquele ser.Porque ausente uma efetiva cultura humanística, inexistente uma concreta compreensão de que as pessoas precisam viver umas com as outras, não possuímos, ou melhor, sequer possuímos mecanismos para verter assertivas que possam servir a parcela considerável dos indivíduos humanos e, dessa feição as coisas, continuaremos nessa babel de egoísmos, numa verdadeira algaravia, onde os idiomas assemelhados são o poder e a economia e os dissonantes e incompreendidos e incompreensíveis são a solidariedade, o amor, a igualdade e a liberdade.Para remate, é de timbrar que os governantes e os legisladores quando se mancomunam são dos que mais distorcem o senso geral que as palavras mereceriam ter.Quando prometem aos seus eleitores, falam a linguagem das serpentes, pois dão os signos que a massa compreende, mas não revelam os sibilos, digo, significados de suas palavras, as quais partem de significantes diferentes daqueles da população.Em outros termos: mentem!São, sim, insinceros, basta conferir que ao assumirem o poder público, na verdade anseiam por um poder privado pelo modo egoístico que o exercem; AS SUAS PALAVRAS TORNAM-SE MENOS SINGELAS, DE MAIS DIFÍCIL COMPREENSÃO; o grave, entanto, é que se metamorfoseiam em arrogantes, despóticas e plasmam com a mentira a soberba de um falso poder.São, igualmente, tão pretensiosos estes pseudo-poderosos ─ na mentira não há poder legítimo ─, que não possuindo as leis, por exemplo, os significantes que lhes interessam, simplesmente suprimem-nas, roubando-lhes o significado e o alcance social e criam outras ─ que não podem ser conhecidas como leis ─, adequadas à sua arquitetura egoística de poder.Fazem isto, e é de pasmar, com as Constituições, como se um grupo, de temporário percorrer pela potestade estatal, pudesse se alçar na voz do povo, no brado duradouro que formou e continua formando um povo.Como é errado e falso este agir, como é egoísta esta conduta, e como é idiota, pois nalgum dia, nalgum momento, tal permissibilidade, ou seja, a possibilidade de aviltar direitos, atingirá também os egoístas, num novo discurso, numa nova mentira, com novas palavras de anciãos significantes.Precisamos de bocas sinceras, de penas francas, dimanando veras palavras!A palavra, por enquanto, somente tem algum valor ao filólogo, ao léxico e ao exegeta, mas pouco ou nenhum benefício tem oferecido à média sociedade. 

 

Capítulo 19: 

A FELICIDADE 

Filão inesgotável é falar de felicidade e é buscar a felicidade.Alguns dizem que o Direito tem como meta encontrar a felicidade.Outros sustentam ser felicidade tudo o que o ser humano pretende encontrar, almejar, alcançar, podendo, mesmo, ser até a infelicidade, quer dizer, poderei ser feliz se desejar ser infeliz e for infeliz.A realidade, entanto, é mais singela.Seremos felizes quando nos libertarmos do Standard antropomórfico nas nossas atitudes e discursos.Parece evidente que a procura incessante de felicidade decorre da vocação do ser humano no sentido oposto, ou seja, de cavar sua própria dor e contrariedade.É palmar que nosso sentimento de concorrência, de sobreposição e de dominação das demais pessoas e do meio, que esse exercício do ego, é vereda árdua e prenhe de obstáculos, vencidos, todos eles, com a obstinação humanóide, mas ao custo de seu bem-estar e de sua felicidade.Claro que a conquista pode ser chamada de felicidade e o destaque do individual no coletivo igualmente. Mas qual foi o preço disso?Felicidade, porque é conceito humano, é tisnada, marcada com o vezo do ego e, pois, da individualidade. É tesouro que jamais encontraremos íntegro. 

 

 

Capítulo 20: A IMPROBIDADE 

Acaso quando falamos de probidade de que realmente estamos a tratar?Proba é a pessoa pautada por um conjunto de valores capaz de conduzi-la nas suas relações interpessoais e sociais e que determina um modo de viver com aceitação coletiva.Em outras palavras, probo é aquele que envereda pela teia social e obtém, de regra, por suas atitudes, integração em seu grupo, o qual chancela seu viver e seu comportamento como sendo correto e adequado ao modelo daquela sociedade.Age com probidade, portanto, o indivíduo tido como bom, honesto, direito, razoável e que possui atitudes reconhecidas como aceitáveis e previsíveis.A probidade, bem se vê, está ligada a uma concepção de confiança e vinculada à observância dos prefalados valores de uma determinada comunidade.Quais valores são estes?A própria expressão confiança indica a noção de fidelidade.Esta por sua vez denota clara idéia de honestidade, que por sua vez conduz à coerência e à previsibilidade das ações.Some-se, ainda, razoabilidade, retidão de caráter, seriedade no cumprimento das tarefas e deveres respectivos.Um ser humano possuidor dessas qualidades pode ser tido por probo, diria, até, pode ser tido por perfeito, bastando, para isso, adicionar, bom humor, criatividade e amor.Claro que não se está sugerindo permanente coerência, razoabilidade imaculada ou perfectibilidade no resultado das tarefas. Não se quer um mito, mas uma pessoa que apesar de suas arestas, traz essencialmente, no seu imo, o germe dos valores indicados.E quando se percebe que esse homem ou aquela mulher não possuem probidade?Quando seu egoísmo malus vem de se manifestar; quando seus critérios particulares preponderam especialmente sobre a fidelidade em relação aos seus pares; quando, enfim, recusa a máscara social e se permite julgar isolado, apresentando-se a um mundo sem inter-relacionamento. Esta conduta é conhecida por improbidade e se manifesta de várias formas, possuindo, entanto, apenas um vórtice: o egoísmo.Dessa maneira e por isso é que se ouve falar em quebra de decoro parlamentar, em improbidade administrativa dos agentes públicos, em traição de amigos e em lesão à moralidade.O ser humano não tem facilidade para ter e manter atributos de moralidade, eis que esta pressupõe aceitação de que todos necessitam de respeito e de dignidade.Um ser moral é aquele que almeja a si próprio um bem-estar compartido, que possui um projeto de vida onde a sociedade interage e que não necessita se ocupar das recomendações e normas de seu meio, pois as assimilou atavicamente e elas dele manam naturalmente.É óbvio que disso já se tratou e concluiu-se que só as regras morais não são suficientes para o bípede pensante, vez que ao longo de sua história mostra-se incoerente com o delineado, pelo grupo, para ele.Então, porque tratar de enfadonho e repetitivo tema?Busca-se focá-lo, exatamente, sob o pálio da ataraxia, de conferir a incapacidade de dividir, de compreender que se seu momento está adequado para que não sofra quaisquer tribulações, tenderá a não querer mudança qualquer que forje qualquer preocupação.É justa esta constatação?É justo esperar que deixemos um campo apascentado para seguirmos o carma social e contribuirmos para que a sina de todos semelhe à nossa, com conforto, sossego e um devir aberto às melhores possibilidades?A resposta dependerá de quanto somos probos ou quanto somos egoístas! 

 

 

Capítulo 21: 

A AMIZADE 

Das manifestações humanas talvez a mais marcantemente pura, possuidora de egoísmo naturalis, seja a amizade!Esta fraternidade não consangüínea que vem dos amigos é daquelas magias, daquelas forças telúricas que felizmente as pessoas não podem controlar.      Um belo dia qualidades ou mesmo defeitos de alguém nos fazem almejar sua companhia – sem sensualidade ou prazer sexual – simplesmente aquele ser traz conforto moral ou espiritual e forja uma aproximação que no amor sexual não seria possível.Pois bem, parece, então, desprovida a amizade do egoísmo, mas tal não é verdade.Há tendências egoístas na amizade. Por exemplo: as pessoas querem sentar próximas umas das outras, querem poder dividir um bom ou mau momento, pensam que podem criticar, sentem-se tão livres que imaginam poder usar bens ou valer-se de favores do amigo.São atitudes despercebidas, mas jungidas a uma libertação do ego e que se prende à tirana postura de ser amigo e de poder fruir dos benefícios da amizade.O bicho humano vai ao trabalho do amigo em horários impróprios, refere à família do outro como secundário ao elo que os prende e, mesmo, despretensiosamente acaba tentando monopolizar as atenções.Não fosse isso, há o anteparo moral da amizade, que gera dependência e, nalgumas situações, esta é irreversível.A amizade tem menos medida que o amor ou a paixão, pois independe das causas daqueles sentimentos e é agrilhoada por elo mais forte: a empatia.A vereda da amistança é pavimentada, não possui obstáculos e os egoísmos referidos são tolerados e por isso a amizade é amoral, não exige fidelidade, nem boa-fé ou honestidade. 

 

 

 

Capítulo 22: 

A CRENÇA, A FÉ E A ESPERANÇA 

Crendo tem-se fé e esperança?Crença, fé e esperança são argilas religiosas moldadas no retórico sacerdotal dos templos?O prospectar do espírito humano em busca da satisfação de suas necessidades, para suprimento da falta de rito e organização à sua existência, depende de elementos externos a nutri-lo com temas e mecanismos de compensação e quando os encontra, readquire ou assume uma crença, que pode ser num bem, numa pessoa, numa possibilidade, no próprio porvir.A crença é um sincero sentimento centrado em algo ou alguém e que dota a pessoa de segurança na redoma de realidade que a cerca.Fé é metafísica, não é apoiada em coisas ou pessoas, mas é uma aceitação de que forças há a acolher o prosélito em momentos de procela e desdita.Trata-se de um conforto que os homens se auto-atribuem para apaziguar suas almas, gerador do sentimento de pertença.E a esperança tem relação com a crença ou com a fé?A esperança é motor de uma ou outra, pois é ela inculcada na própria essência humana e, por conseqüência, é instrumento egoístico forjado nas defesas contra ameaças quaisquer ao bem-viver e, assim, pela esperança são aceitas as pessoas ou coisas a seu ver propiciadoras de bem-estar, e vai além, e diz a seu titular de que tem mesmo o direito de pertencer ao cosmos e que, em verdade, deve ele aceitar sem provas que há uma entidade que o protege, ama e que interferirá em seu favor perpetuamente e que tem o dom do perdão igualmente perene.A esperança diz para se ter crenças e fé, ela é a motivação de uma ou outra e o que significa, senão, que as pessoas querem estar amparadas de qualquer maneira e que são meritórias apenas por serem humanas, de crer ou ter fé e que isto as “salvará” ou das mazelas dos semelhantes, ou dos males do mundo.Tão conveniente é a esperança que, nitidamente, com um pouco de atenção, será possível perceber que ela nada mais é do que o bom e velho egoísmo, que busca à conveniência do ente humano dar-lhe agradável lenitivo a sua existência, ou seja, gerando para si mesmo uma explicação do porquê compensa ter vindo ao mundo como ser humano.Há coisas a ser fazer, há em quem crer e, especialmente, acreditar, sem provas, que um Gênio Universal – qual um grande Pai tolerante a tudo – barrará todas as coisas ruins.Este sentir de auto-preservação, é o próprio alavancamento do ego. 

 

Capítulo 23: 

O FUNDAMENTALISMO 

O humano, embora capaz de prodígios tecnológicos, artísticos, literários e, até, por vezes, solidariedade, desgraçadamente tem o repreensível hábito do egoísmo malus a concorrer com a angulação positiva de sua índole e decorrente do descontrole de seu ego vem construindo – sempre o veio fazendo –, aperfeiçoando a sua verdadeira conduta ou ação.A realidade desse exercício de aprimoramento do Ego, nele detecta-se a somatória de todos os “egoísmos” já indicados, podendo ser considerados como o real comportamento humanóide, na sua toada efetiva, na sua única atividade: a monomania intitulada FUNDAMENTALISMO.Todo o conjunto dos seus planos e atitudes são voltados a dar conforto a determinados complexos de opiniões e vontades.Das religiões manou para os povos – meio social e política –, com facilidade, a mensagem de uma indispensável, literal, irracional genuflexão a comandos e livros “sagrados” contempladores de todo o necessário para a vida e a felicidade das pessoas.Para garantir a higidez da ortodoxia da palavra santa, uniformidade na obediência e na busca da “existência feliz” alguns poucos receberam – ou melhor se auto-irrogaram – a prerrogativa de interpretar os manuais inspirados pelas divindades, cabendo aos demais seguir seu “vaticínio clerical”.E se houver diversidade no pensar?Ai daqueles que não aceitarem as palavras sacras das leis divinas, seja porque não crêem em deidades, seja porque desconfiam do intérprete.São inimigos do bom, do certo, do justo!Lesionam o moral da sociedade, maculam a vontade do Senhor e devem pagar por isso!Daí vêm os expulsos, os esquecidos, os executados, os invadidos e os convertidos a manu militari.O Fundamentalismo é a superlativação do Ego.É uma forma de loucura em que um único pensamento ou idéia absorve a mente do indivíduo, uma idéia fixa, obcecação que acomete todo o ser humano.Treinadas e ensinadas as pessoas na religião a verem seus modelos como únicos e impositivos aos ímpios e infiéis, plasmaram esse conceito para tudo em suas amesquinhadas e egoístas existências, daí para frente forçando a implementação, através dos tempos, de suas formas de governo, vestimenta, alimentação, dinheiro, hábitos os mais variados, tudo sob o fundamento de as coisas superiores virem daqueles que pretendem reinar – dirigir vidas com “paternalismo rígido” – sobre os demais.Fundamentalismo, enfim, é apenas uma nomenclatura sofisticada para dominação à base de fundamentos ou regras de atenção obrigatória e fiel, sendo desimportante neste Século XXI se se trata de questão religiosa, política ou econômica, tudo está fundido, retornando ao começo deste discurso, à busca e preservação de poder, preferencialmente exercido de modo que a ignorância, a obediência e irresistência predominem na população.Trata-se, em síntese, de provocar com determinadas linhas de agir e pensar uma idiotia generalizada, impedindo o grupo social de raciocinar sobre suas escolhas e caminhos e a massificação ao tornar idiotas as pessoas em seu conjunto, nutre e forja o egoísmo daqueles que tomaram a si o modo de ser dos demais.Inexiste pessoa, ente com ideação e vontade própria, sonhando, desejando seu espaço físico, social e espiritual. Pelo fundamentalismo ninguém possui projeto de vida – salvo se for considerada a submissão ao standard fundamental a sua elaboração – não há autorização para um marca personalíssima, estamos mais para uma colméia do que para uma sociedade erguida com o burilar das diferenças formadoras de uma cultura real.Não há um domínio total – ainda – dos fundamentos dos dominadores, mas há um grande investimento material e moral na assimilação das pessoas a essa comunidade de uniformidades idiotizadoras.O Egoísmo na sua performance fundamentalista suprime o pensamento e reprime a liberdade. 

CONCLUSÃO 

 

Nossa proposta, talvez, pareça muito cruel ou negativa em relação à natureza humana, embora a pretensão deste ensaio nem de longe seja desvalorizar o ser, até porque seria extremamente contraditório com as idiossincrasias inatas do homem e, portanto, também nossas, meu egoísmo projeta-me para o centro dos interesses, o centro do universo, para a alegria, a felicidade e o conforto plenos.Efetivamente não quisemos para nós e nem para ninguém indicar uma existência medíocre, mas não pudemos deixar de indagar, com Ingenieros, somos homens superiores, medíocres ou inferiores?Quais as motivações de nossas ações?Somos bons ou maus?Temos moral ou somos amorais?Somos o resultado final da criação? O supra-sumo insuperável da natureza?A quintessência? Nada haverá melhorar ou de melhor?Ao respondermos que temos bondade, moralidade e sugerirmos sermos o ápice de toda a criação nos estaremos atribuindo qualidade sobrenatural? Somos animais, ou deuses, reinando sobre toda a criação e determinando o que deve existir e o que deve desaparecer?Os modelos que seguimos são o ideal para a raça humana?Como seremos felizes?E, por fim, toda e qualquer resposta não estará nutrindo, tão somente, nossa própria e particular visão de mundo e de realidade?Sendo, como desenhamos nos vinte e três capítulos, nossas ações ou silêncios meros manifestos da individualidade humana, esta se justifica em si mesma, descontextualizada de todo o equilíbrio entre homens, animais, plantas e mesmo os minerais?Haveremos de nos comportarmos “macunaimicamente” até quando?Eis a proposição em cada crítica ao homem, ao ser humano.Devemos parar e pensar: nossos passos trilham em direção de um bem-estar, ou precisamos refazer nossas metas, reescrever nossa história, nos encaixando no mundo e não nos isolando dele, como se pairássemos sobre ele, numa espécie de Olimpo, não vulneráveis aos males que sobre ele recaiam?Pareceu-nos claro, no desenvolvimento dos diversos tópicos, nosso isolacionismo, nosso descompasso com as efetivas necessidades da vida.Ficou difícil encontrar na conduta humana verdadeira solidariedade, amor, sinceridade, mais evidente se mostrou a alimentação do ego, com reservas de poder, com manipulações, com discursos vazios (talvez até este não tenha sido localizado!), com ajudas e engajamentos pautados em falsas premissas.Derradeiramente, não vimos como negar o egoísmo humano e nem sempre o verificamos como algo negativo, mas buscamos a todo momento interrogar: a pessoa humana é só egoísta, ou haverá algo mais que a possa tirar da mediocridade, alavancando sua existência para uma realidade mais ampla, mais universal, sem exclusivimos, sem sectarismos?Levamos à reflexão o que descrito, arrogantemente imaginando que a sua leitura funcionará como espelho, no qual as pessoas, em algum dos nichos de egoísmo se enquadrarão e, eventualmente, sentirão necessidade de não mais se identificarem com tão vil existir. O diálogo entre Hamlet e Ofélia faz plasmar as formas bonus e malus da natureza humana e revela, num momento de loucura concretizada, como é pobre e amesquinhado o bípede pensante, mormente quando desvestido dos elementos que formam sua couraça egoística, quais sejam, dentre outros muitos, o orgulho, a vingança, a ambição e a desonestidade.Resta, às pessoas, considerar como cada uma será se desnudada de sua carapaça de egoísmo, restará alguma coisa, ou qual o príncipe dinamarquês ficará apenas o silêncio da morte e no caso não o decesso do corpo, mas da moralidade que deveria reger o relacionamento humano?Apreciemos o colóquio: 

Eu, de mim, considero-me mais ou menos honesto, mas poderia acusar-me de tais coisas, que teria sido melhor que minha mãe não me houvesse dado à luz. Sou orgulhoso, vingativo, cheio de ambição, e disponho de maior número de delitos do que de pensamentos para vesti-los, imaginação para dar-lhes forma, ou tempo para realizá-los. Para que rastejarem entre o céu e a terra tipos como eu? Todos somos consumados velhacos… 

 

 



[1] Diálogos. São Paulo:Cultrix, pp.46 a 49, 55, 59 e 61.

[2] F.46.

[3] SCHPENHAUER, Artur. Da morte; Metafísica do Amor; Do sofrimento do Mundo. Trad.Pietro Nassetti. São Paulo: Martins Claret, 2006.

[4] Apelido do bandido chamado Damastes ou Polipêmon, que assaltava os viajantes entre Mêgara e Atenas.  Procrustes obrigava os viajantes altos a deitarem-se num leito menor que eles, e os baixos num leito maior, cortando as pernas dos primeiros e puxando violentamente os pés dos segundos para ajustá-los às camas. Procrustes foi morto por Teseu. pg.339, Dicionário de Mitologia Grega e Romana, Mário da Gama Kury, Jorge Zahar Editor.

[5] BARROS, Enéas Martins de. Gramática da língua portuguesa. 2ª ed., São Paulo: Atlas, 1991, p.322.

O EGOÍSMO – BREVÍSSIMO EXAME DA ATARAXIA – 1ª parte

August 11th, 2006 by vellozo

  

O EGOÍSMO – BREVÍSSIMO EXAME DA ATARAXIA – 1ª parte 

SUMÁRIO 

INTRODUÇÃO                                                                                                        

II INTRODUÇÃO                                                                                                      

Capítulo 1: O PODER                                                                                             

1.1: O Poder Econômico1.1.1: Poder Econômico Público1.1.2: Poder Econômico Privado1.1.3 - Parcial Conclusão 

Capítulo 2: O MEIO SOCIAL                                                                                Capítulo 3:  OS GOVERNANTES                                                                                   Capítulo 4: A JUSTIÇA                                                                                         Capítulo 5: A FAMÍLIA                                                                                       Capítulo 6: A LEI                                                                                                    Capítulo 7: O LEGISLADOR                                                                                 Capítulo 8: A MÍDIA                                                                                                Capítulo 9: A PROPRIEDADE                                                                             Capítulo 10: O SABER                                                                                           

10.1.1: A não difusão do conhecimento ou sua retenção 10.1.2: A não mensuração dos efeitos do uso do conhecimento  

Capítulo 11: O ESCRITOR                                                                                  Capítulo 12: A IMORTALIDADE                                                               Capítulo 13: A NOVIDADE                                                                       Capítulo 14: O AMOR                                                                                 

14.1:               O desejo da mulher14.2:               O desejo do homem14.3:               A mulher e o homem 

Capítulo 15: A FILOSOFIA                                                                        Capítulo 16: OS ESPERTOS                                                                               Capítulo 17: OS MOVIMENTOS                                                              Capítulo 18: A PALAVRA                                                                         Capítulo 19: A FELICIDADE                                                                     Capítulo 20: A IMPROBIDADE                                                                 Capítulo 21: A AMIZADE                                                                           Capítulo 22:A CRENÇA, A FÉ E A ESPERANÇA    

Capítulo 23: O FUNDAMENTALISMO                                                     

Conclusão                                                                                                    

INTRODUÇÃO 

Não por ser inédito, mas sendo necessário recordar aos olvidados, importa fazer uma digressão sobre os fatores de ordem pessoal ou social que arrastam o ser humano pela sua vereda eudemonística, compelindo-o à busca de mecanismos de asseguramento de suas satisfações individuais, do que imagina ser felicidade.Pensamos — nada obstante os fatos dirigidos pelos homens e mulheres serem resultantes de uma aceitação coletiva — que anteriormente ao processo de coletivização, as idéias, as vontades, tenham originado em determinados indivíduos, os quais, mercê de suas potencialidades, foram capazes de “seduzir” os assemelhados a seguirem-nos nos projetos urdidos para si mesmos.Dessa “sedução” se retira o sumo vital da satisfação do indivíduo, pois aceito em seu meio e aceitas suas proposições, encontra solo fecundo para se desenvolver segundo suas conveniências, amealhando os benefícios, o mais possível, surgidos durante seu ciclo de existência.É sob a perspectiva do ser humano e seus desejos de auto-satisfação, a apresentação ora trabalhada, onde de forma singela e sintética recortamos manifestações do ser cogitante, criticando-as, para buscar, não, obviamente, respostas ou soluções, pois tais não são viáveis, mas constatações e reflexões sobre os processos humanos.Dessa ousadia ingênua, seguem nossas observações sobre o egoísmo do poder, do poder econômico, dos governantes, do meio social , da justiça, da família, da lei, do legislador, da mídia, da propriedade, do saber, de quem escreve, da imortalidade, das novidades, da filosofia, da palavra, da felicidade, da amizade, da crença, da fé, da esperança e do fundamentalismo. O ora desenvolvido tem somente uma ambição: retirar de um processo de observação, sem grande vinculação dogmática (não se ignorando nossas idiossincrasias adquiridas ou “recalques”) às linhas de pensamento já existentes, o agir humano em situações particulares, como são os tópicos antes enumerados, pretendendo demonstrar o evidente de que não nos comportamos senão em troca de algo que nos satisfaça, podendo ser um simples agradecimento, ou a aquisição de um bem, não nos importando, em geral, como as relações da sociedade ou da natura interferem ou não em nosso plano egoístico. Os ritos, os métodos e os meios de contar nossas histórias e crenças são movidos por interesses muito privados, muito aninhados em nosso íntimo e todos são voltados à nossa própria satisfação.Para esta imersão do agir individual e respectiva prospecção das suas intenções recônditas nos inspiramos na boa, velha e grega ATARAXIA.Mas o que é isto? Qual a razão de seu uso?Não obstante a possibilidade de vários sentidos, para a reflexão vertente, Ataraxia é o estado “de uma pessoa que se não comove de nada” [1] e está ligada a nossa memória atávica dos tempos dos homens de ouro [2], dos deuses e da vida, da suposta boa vida desses seres superiores, de seu gosto pela felicidade, pela sua doce vida, voltada aos festins, à thaleia[3]. Trata-se de sonhar, de desejar que os deuses vivam bem, sem trabalho ou encargos, somente contemplando e que esta vivência seja estendida aos humanos.Martin Seymor-Smith faz menção a esta conduta humanóide quando aborda o contributo de Sexto Empírico à humanidade.  Este médico e filósofo grego foi o responsável por “um relato completo da filosofia do ceticismo”, tendo como ponto de apoio principal Pirro de Élis. Pirro, dispõe Smith, seu objeto central seria “psicológico, uma vez que seu interesse era atingir um estado chamado de ataraxia: paz de espírito, tranqüilidade da mente, imperturbabilidade, ausência de ansiedade e, principalmente, negação à luta … direcionava a sua atenção ao mundo além da experiência imediata e para os aborrecimentos (ou pior) conseqüentes da demasiada atenção dada a este mundo”. [4]As pessoas, de tal modo, passam a se comportar como pertencentes a um concreto particular desapegado da problemática e da realidade do mundo e voltado à satisfação pessoal perene, ininterrupta, e “sua única inquietude é ver a discórdia” afastada de sua esfera de prazer, ou, de outra maneira, que não se interrompa “o prazer do bom festim” para que não seja perturbado o banquete, a vida alheada. A ataraxia vem como resposta do ser humano às intromissões, à constatação de que outras esferas de viver, de desejar e de depender existem, refutando-as em benefício de seu próprio e exclusivo bem-viver [5].Aqui o defeito do egoísmo, de regra malus, que é a alheação relativamente ao seu entorno.O egoísta é conscientemente indiferente! [6]Num modelo, não escondemos, que segue o Dicionário Filosófico de Voltaire, mas que não pretende a ele se assemelhar, egoisticamente apresentamos as nossas próprias e as ambigüidades e as contradições que a pessoa humana oferece.Nessa apresentação julgamos correlacionar conceitos como egoísmo e ataraxia, pois em nosso leigo ver o sentimento “ataráxico” é a flama perenal do mergulho em nós mesmos. Augusto dos Anjos sintetizou com maestria o que desfilaremos em dezenas de páginas no poema O MAR, A ESCADA E O HOMEM [7]

Olha agora, mamífero inferior,

À luz da epicurista ataraxia,

O fracasso de tua geografia

E do teu escafandro esmiuçador! 

Ah! Jamais saberás ser superior,

Homem, a mim, conquanto ainda hoje em dia,

Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia

Voando ao vento o vastíssimo vapor, 

Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me!

E a verticalidade da Escada íngreme:Homem, já transpuseste os meus degraus?! 

E Augusto, o Hércules, o Homem, aos soluços,

Ouvindo a Escada e o Mar, caiu de bruços

No pandemônio aterrador do Caos! 

II Introdução: 

EGOÍSMO, VAIDADE E EGOTISMO

 

 

Embora o presente estudo não pretenda se ater a nenhuma corrente específica, a nenhum elogio ao ego de quem quer que seja (salvo, é claro, o do escritor), inarredável apresentar nossas reflexões estabelecendo um paralelo entre egoísmo, vaidade e egotismo, não distinção, mas aproximação.Irresistível, portanto, referir a José Ingenieros em seu A vaidade criminal e A piedade homicida, em cuja obra tão bem desenha o manifesto da vaidade. A partir das impressões deste ítalo-platino faremos Considerações sobre os referidos predicados humanos.Diz Ingenieros que se pode perdoar “a vaidade a quem realiza boas obras; em quem nada faz é ridícula; em quem procede mal, é repulsiva” [8]. Ora, a bem de ver, então, a vaidade é algo a menos, algo dispensável na natureza humana, a ser descartada em favor da procura da elevação moral. Sequer em nome de fazer boas obras se justifica. Lembra-nos, o mesmo pensador, de Eróstrato, que olhou “para dentro de si mesmo e se viu impotente para a realização de uma obra boa” e então recordando que os conquistadores deixaram suas marcas pela dor e pela morte, ateou “fogo no templo de Diana”, em nome da glória, “além do bem e do mal” . Como explica Ingenieros, ainda, em “Éfeso, cidade da Jônia, na Ásia Menor, existia um templo que figurava entre as setes maravilhas do mundo” dedicado a Diana e o vilão ateou-lhe fogo ao fito de “imortalizar sua memória pela magnitude de sua infâmia” e conseguiu, ficando denominada erostratismo “essa hipertrofia da vaidade, esse desejo de exibição e fama que, em muitos casos, semelhantes ao de Eróstrato sói ser o móvel essencial do delito”.

Ingenieros chama de egotismo mórbido a “noção pleonástica da personalidade própria” alimentada com o “brilho da glória sobre as frontes eleitas” e com o “elogio do mérito alheio”, funcionando este como “um estímulo para o apetite de louvores próprios”.

Eis aqui uma divisa importante entre o egoísmo e a vaidade. Aquele é intrínseco à natureza humana, é um exercício do próprio eu, cego, vacilante social, corre a se encontrar no discurso de sua mor importância em relação aos seus semelhantes. A vaidade já é especialização do egoísmo, não é inata, necessariamente, existindo os que não a possuem.  É um sentimento exagerado de um valor inexistente no próprio imo do indivíduo, que supera a cegueira das necessidades circunvizinhas e atinge o cume da exacerbação da personalidade, um brilho amoral que daria destaque especialíssimo ao vaidoso. Podemos conviver com os egoístas, com os vaidosos tal é impossível!O egoísta é um ignorante social, o vaidoso é um asqueroso e rastejante ser, esperto, arguto, ciente de sua existência e do meio social, ávido por fazê-la relevante socialmente, por ter importância, sem, entanto, nobreza, denodo, heroísmo ou qualquer outro mérito. É um parasita moral!Como bem diz Ingenieros a vaidade é um egotismo mórbido, é exponencial ao egoísmo, o supera, é a ele superlativo, pois “consomem os homens as suas melhores energias, sedentos da distinção e de destaque na sua órbita, preocupados em chamar atenção do seu mundo, de cativar a opinião alheia, por qualquer meio e de qualquer maneira”.

Gradua, o filósofo, a vaidade, dizendo que se houver diferença desse sentimento, conforme o que anseiam as pessoas, ela “é puramente quantitativa entre o colegial que deseja obter dez pontos nos exames, o político que sonha ser aclamado ministro ou presidente, o novelista que aspira a edições de cem mil exemplares e o assassino que deseja ver seu retrato na seção policial dos grandes jornais” e arremata, aduzindo serem a ”vaidade, o orgulho e a pretendida megalomania dos grandes homens… formas intensas de fenômenos comuns, raras vezes maiores do que a vaidade e o amor próprio dos imbecis” [14].Seguindo o raciocínio de Ingenieros o egotismo é o manifesto do orgulho, é a ante-sala da vaidade, é o culto conscientizado do ego e este deus reclama atitudes, sendo, pois, ativada a vaidade, a inglória busca de glória, que supostamente obtida irá ofertar hecatombes à deidade “eu”, com a concepção eu fiz, eu marquei, eu registrei, tenho notoriedade, preocupo o público, e o custo dessa qualquer coisa atingida, para os outros, é indiferente.Nessa indiferença reencontramos o egoísmo. A semente, o gérmen da adoração ao ego e, por conseqüência, da também por vezes destrutiva vaidade (quando atinge seu ápice absurdo do Erostratismo).De tal modo se desdobra a conduta humana, que do egoísmo ínsito, pode se desdobrar o egotismo e à sua saciedade vibrará a vaidade e esta pode atingir o pináculo do exagero e do imbecil, trazendo destruição e perda. Nessa via, a circunspecção sobre nosso egoísmo, sobre nossos pecadilhos sociais, é um treinamento a que não nos tornemos indivíduos anti-sociais, ególatras e vaidosos mórbidos. 

 

Capítulo 1: 

O PODER

O ser humano, pautado no egoísmo “malus”, luta incansavelmente para lograr êxito em suas empresas políticas (públicas sem sentido lato) ou mercantis.Dizemos “malus”, porque o egoísmo, na acepção vernacular, embora signifique sentimento de sobreposição de interesses pessoais aos alheios [15], na verdade não é, enquanto inspiração à luta ao crescimento, positivo ou negativo.Tem sido tomado como sinônimo de prejudicial, porque raro é encontrar homem ou mulher a se saciar com suas aquisições. No geral, as pessoas estão sempre procurando ascender, qualquer que seja o preço (e nem sempre assumem os riscos dos danos que causam).Sem pretender negar a máxima o “Poder corrompe“, o que vemos, na verdade, é que o homem se corrompe para assumir o poder, havendo, daí em diante, um rumo viciado de corrompido no poder, usando o poder para se corromper mais e corrompendo-se para atingir ou manter o poder.O poder é o conjunto de atribuições e de outorgas que determinada pessoa possui ou recebe, para exercer um mister, seja público ou privado.Egoísta, o homem vê no poder a possibilidade de esgotar a fome de atingir seus próprios interesses, diante do largo espectro por ele oferecido de possibilidades de comando sobre entes individuais ou coletivos e que, por sua vez, oferecem ao detentor do poder, por temor ou por egoísmo, inúmeras vantagens materiais ou morais [17].Este é o poder da atualidade, do ser humano, das creações de Deus, é restrito e serve para a satisfação daqueles sujeitos ao alto preço do aviltamento.O poder, porém, e na verdade, tem outra ou deveria ter outra significação, máxime quando se fala em poder público, mas o conceito se enquadra ao poder privado (dos grupos econômicos, por exemplo), idealizou-se o poder com caráter axiológico e não teleológico.O poder de que agora se fala é aquisição imemorial e atávica das gentes, que necessitando viver em comunhão, trocando bens materiais e morais, para viverem e sobreviverem, cumularam uma série de prerrogativas e obrigações (sempre esquecidas) e as destinaram aos elementos que por sua nobreza (heroísmo, caráter laboral e comunitário) se destacavam da massa, e a transferência do poder se dava por unção, aclamação ou eleição (o poder era tomado a força também). Estas pessoas usariam da autoridade e dignidade recebidas, observando as obrigações, e trabalhariam em nome da coletividade que as escolheu.Retornando ao mundo contemporâneo, indagamos: onde está havendo trabalho em prol das comunidades pelos seus representantes?

O que as comunidades têm feito diante da ausência dos serviços dos detentores do poder?

Ao egoísta detentor do mandato outorgado pela coletividade não é autorizado fazer para si, ou seja, utilizar o poder em seu benefício, e em nenhum recanto da terra, porque como mandatário, só pode realizar o que a procuração lhe concede, os excessos são nulos e inaceitáveis.

Mas o que fazer?Agregar-se! Associando-se a coletividade e exigindo dos serviços e servidores à sua disposição a prestação, e se não for atendida, revogue a outorga.   Sim, isto é possível!Como realizar?Ingressando com remédios jurídicos, tornando públicos os excessos, votando com mais lucidez, participando das reuniões e trabalhos dos detentores do poder.Ao poderoso um aviso: execute suas atribuições e observe suas obrigações, lembre-se, você é um egoísta e assim sendo quer preservar seus interesses, mas com o desmando e a apropriação do que é coletivo não demora muito e para você também vai faltar!É o momento da meditação.Aqui não custa reafirmar o que muitos pensadores defendem: tudo o que é criado pelo homem é fictício e passível, assim, de ser mudado, conforme o enfoque que se dá a determinada questão.Vivemos um momento — talvez sempre tenha sido assim — em que o poder e seus detentores estão em discussão, ao mesmo tempo vemos a necessidade de se dotar pessoas de poder para gerir a coisa pública: o crescimento demográfico e o conseqüente crescimento do individualismo que é incompatível com a vida social exigem o espaço público, mas um novo sítio, da coletividade e não dos poderosos. Constatamos a dificuldade de encontrar elementos dotados de capacidade laboral e social para arcarem com a responsabilidade do poder e a conseqüência disto é a malversação do dinheiro do povo, a corrupção, a incompetência, etc. 

A massa, embora ainda esteja sendo conduzida pela boa oratória, está se esgotando em passividade e o Estado, como conhecemos, tende a desaparecer, para ser substituído por outro, onde as representações populares não sejam tão centralizadas (Congresso, Assembléias, Câmaras) e onde a noção de poder não seja tão “setorizada” como é hoje. Urge a distribuição do poder, que permitirá um maior controle do ego; as decisões das comunas efetivamente beneficiarão a maioria e o dinheiro dos tributos permanecerá para a manutenção destas.

Em resumo - O poder tende a retornar para o seu verdadeiro titular: o povo. 

1.1: O Poder Econômico 

Ao contrário do que se prega, o poder econômico, igualmente ao poder em geral, não é prejudicial em si mesmo.A espécie humana, com o desenvolvimento técnico torna-se cada vez mais dependente de bens e por que não? Entidades físicas que somos, sujeitos à fome, frio e doenças, não devemos buscar conforto e saúde?Ocorre, entanto, ser um egoísta que exerce o poder econômico, pior, é um egoísta pluriarticulado, porque é um grupo, formado de vários grupos, compostos, é claro, por indivíduos.Falamos em grupo, pois o conjunto dos detentores do poder econômico têm uma só índole.O poder econômico distribui-se em público e privado. 

 

            1.1.1: Poder Econômico Público 

Está concentrado nas autoridades gerentes do dinheiro público e que o aplicam à sua conveniência, escravizando os indivíduos, ora oferecendo-lhes favores, verbas, para cobrar fidelidade, ora negando verbas, para obter fidelidade.Egoístas não gerenciam com critério coletivo, mas pessoal.Quem não se submeter não recebe verbas, embora a autoridade não seja sua proprietária. Infelizmente e é indiscutível, adona-se dos bens públicos e os administra como seus, extorquindo confiança e parcerias.

Hoje esta é Teoria Geral do Poder Econômico Público. Aliás, de público só tem a origem, o destino é individual.Relevante registrar, nesse momento, apesar da atribuída tripartição das funções do Estado (poderes) idealizada por Montesquieu, haver o predomínio quase absoluto do Executivo sobre os outros dois poderes — Legislativo e Judiciário — pois essencialmente arrecada os dinheiros públicos e os distribui e por ser o detentor do patrimônio, seus representantes arvoram-se, com essa dominação, como a parte pensante e útil do Estado, tratando demais instituições como objetos dispensáveis e obstaculizadores de suas atividades. Ora, tal ditadura nas entranhas estatais revela a essência do egoísmo: a superação de obstáculos em benefício de determinada individualidade.Não há negar que os negócios públicos estão enfeixados na potestade desses periódicos monarcas da falsa democracia, que se sofrem influências dos outros setores estatais, semelhantes interferências só vêm confirmar estarem as soluções aos cuidados de determinados indivíduos. 

 

1.1.2: Poder Econômico Privado 

Quanto ao poder econômico privado, caso não se utilizasse do público para crescer, seria mais aceitável seu individualismo.Os grupos econômicos apareceram e se desenvolveram porque a necessidade humana é insaciável. Assim, só por isso é que se verifica, atualmente, a sua presença. Vale dizer: sem a necessidade humana, sem a coletividade, não possuem os grupos nenhuma finalidade. Desta maneira, deveria haver uma relação de troca e de respeito com a comunidade, estranhamente, entretanto, vemos total indiferença com o meio, a não ser quando há a pretensão de seduzi-lo ao consumo.

O que não observam “os poderes econômicos” é que têm deveres com a massa que os sustenta, em outras palavras, se pretendem a manutenção do poder, devem servir e não ser servidos. 

1.1.3 : Parcial  Conclusão:           

Aqui cabe, ainda, a observação de que os grupos não satisfeitos em serem servidos, querem, como iminências pardas, usar o poder público e diga-se de passagem, para estes, o “poder público” dobra a cerviz e presta adequadamente seus deveres e extrapola, descumprindo as regras de convivência em sociedade que são as leis, fraudando certames licitatórios, facilitando autorizações, empregos, etc.

Temos, como foi posto, que tanto as autoridades, quanto os grupos, ferem o pacto social e, portanto, estão à margem, embora pretendam marginalizar a sociedade. Questionamos: será impossível satisfazer interesses próprios, sem ferir os interesses do todo? Aos detentores do poder econômico (público ou privado), recordamos, se é que sabiam e esqueceram: a história registra que mesmo a miséria tem um limite e quando este é atingido, ocorrem as revoluções.Lembrem de Diógenes, o cínico, que especulando tumbas, uma de um rico e outra de um pobre, no conteúdo encontrou diferença alguma.Qual é a mensagem? Não havendo diferenças intrínsecas entre os servidores e os servidos, a igualdade deve plasmar e manifestar-se, de igual forma, externamente. Como concretizar isto? 1. Fixando os custos de seus bens dentro do suportável, dês a produção até a distribuição, nada mais fazendo do que verificar o que demandou a feitura ou a realização da coisa, com os acréscimos do desligamento e uma margem honesta de lucros. 2. Prestando os serviços independentemente das cores ou bandeiras dos beneficiários e cumprindo com rigor, sem acomodações, as regras aprovadas pela sociedade (leis), distribuindo verbas com critério, para todos que delas necessitem, pois a coletividade é a sua verdadeira senhora, apresentando programas nas áreas básicas, sempre justificando e motivando suas iniciativas, abandonando o arcaico e egoísta conceito da oportunidade e conveniência. 

Capítulo 2: 

O MEIO SOCIAL 

É composto dos detentores do poder e da coletividade que os serve, mas que deveria ser servida e esta é composta dos ricos, dos pobres, dos miseráveis, dos sábios e dos ignorantes.Na Teoria Geral do Meio Social apenas os ricos e os sábios são merecedores de alguma obrigação e respectivo serviço pelos detentores do poder. Os pobres, os miseráveis e os ignorantes sempre servem, nunca são servidos e são sempre esquecidos.Os detentores do poder, na fome deste, agradam os ricos porque estes  dão o sustentáculo material para o atingimento do poder e sua manutenção e respeitam os sábios, os únicos (quando querem) que podem abalar a estrutura dos poderosos.Mas para que existe o meio social?Evidentemente o meio precede o poder, como já dissemos, e existe para garantir a sobrevivência da espécie, com dignidade. São pessoas que se associam, interagindo, visando satisfazer suas necessidades.Do meio social nasce o poder e o seu gestor.Aparentemente, porém, nenhuma pessoa tem aptidão para administrar poder, face seu egoísmo, decorrendo disto, não gerir o poder para o meio, mas para si mesmo.            Com este comportamento, criou-se inúmeras categorias, que resumimos no seguinte: 

1. A classe dos indivíduos com egoísmo ‘bonus’, ou seja, aqueles  que têm seus interesses próprios, mas respeitam os demais como iguais. Sobrevivem às adversidades, pois lutam e se esclarecem, impondo, igualmente, algum respeito;2. A classe dos indivíduos com egoísmo ‘malus’, que corrompem e se corrompem para atingir e manter o poder. São, na maioria, em nosso mundo, os detentores do poder, que só investem no meio com recursos deste, sem nada dar de si, visando a criação e manutenção da ignorância, da pobreza e da miséria;3. A classe dos pobres e ignorantes, criada pelos poderosos para fins de serviência (semelhanças com o ‘Admirável Mundo Novo’?).

Permitem os poderosos que tenham algum acesso, para que aceitem e compreendam as ordens a receber;4. A classe dos miseráveis, que só servem aos poderosos como meio de ascensão e aquisição de poder. Nada tem, a não ser o maior número. Hipocritamente é lembrada nos momentos de transição, quando sua força, do conjunto, precisa ser utilizada. 

Pretendemos cuidar, aqui, somente da casuística do meio social. O que é isso?São os problemas decorrentes da insistência de manutenção das classes dos pobres, ignorantes e miseráveis.O poderoso, tal como investe na mantença de seu poder, aposta na mantença destas categorias, conforme já expendemos. Pois bem, a cegueira do poder não permite que vislumbrem os seus detentores as conseqüências de suas ações, que estão resultando em milhões de doentes, pedintes, desesperados e criminosos famélicos.

A faixa infanto-juvenil é a mais atingida. São os pixotes, os capitães de areia, os meninos de rua, que tanto incomodam e que todos querem sejam escondidos e encarcerados, isto porque sua pobreza, ignorância e miséria fere os olhos de quem causou esta situação, e estes são os poderosos, que criaram tal quadro, seguidos dos indivíduos  com egoísmo  “bonus” que omissivamente permitiram a instalação e permanência deste caos.                                                                                  É claro que uma conduta grave deve ser apurada, prevenida, corrigida, orientada e reprimida. Mas não é verdade que os crimes do expurgo da sociedade são novidades ou impulsionados pelo sistema legal (veja-se as críticas ao Estatuto da Criança e do Adolescente), além do mais, são os críticos, os detentores do poder, hipócritas e mentirosos, os culpados maiores destas condutas (diante da miséria que forçaram em criar). Estes são os primeiros a quererem as punições, porém, tais causadores da miséria (os poderosos e os omissos) é que deveriam ser punidos (se é que já não estão sendo, uma vez que alvos dessa massa desesperada).Nas cadeias e isso ninguém ignora, temos contato com aprisionados, cuja maior parte cometeu seus crimes com um histórico de pobreza, ignorância e miséria (observação: os poderosos também cometem crimes: a punição mostra-se mais difícil).O meio social está doente, porque seus componentes estão doentes.Parte maior tem a contagiosa doença da miséria, pobreza e ignorância e parte bem ínfima, mas a que comanda o todo, tem a doença do egoísmo “malus”.E, afinal, quais as conseqüências destas doenças?Evidentemente que todo o meio social, como conhecido, perecerá, pois que a minoria egoísta logo será vulnerável à maioria miserável e esta cometerá, para sobrevivência, toda espécie de conduta e sendo a maior parcela, não haverá, como já não existe, meios de controle.Há remédio?Sim, um único. A panacéia está nas mãos dos egoístas, que devem usar seu poder em favor, incondicionado, da maioria, que recebendo bens materiais e instrução, deixará de ameaçar a minoria e se voltará à sua formação moral. E veja-se, não é preciso abrir mão do egoísmo, basta entender que se não houver a profilaxia social, não existirá interesses pessoais a satisfazer, não haverá nada.Como aplicar o remédio?A receita é singela: São escolas, creches, hospitais públicos, frentes de trabalho, preços suportáveis e honestidade. 

 

 

Capítulo 3: 

OS GOVERNANTES 

Estes são os que detêm o poder público.São os ungidos, eleitos, ou aclamados e responsáveis por todos os bens da sociedade e que possuem o mandato outorgado pelo meio social.Em nossa realidade são tiranos, com egoísmo “malus”.

Manuseiam o poder e os bens públicos em seu proveito próprio, dispensando todos que tenham ideologia diferente e não se curvem a servi-los.Infelizmente, em toda a história da civilização, nenhum, nem Alexandre ou Salomão, fica excluído do conceito anterior. Por esta razão as comoções sociais são inevitáveis, em decorrência de que muitos padecem para o conforto e prazer de poucos.Indiferentes aos seus representados têm momentos de glória os que governam, mas quando sucumbem, não mais se reerguem.Embora escravizem, são os maiores escravos, estão presos em si mesmos e não se libertam nem com a morte, posto que seus abusos são imorredouros.Traidores da massa, forçam-na nos limites de suas energias e por ela são sufocados.Divertem-se com joguetes, usando e descartando dos indivíduos, descumprem as leis, considerando-se superiores a ela, investem na violência e nunca dão satisfações de seus atos.Por que são assim? Porque seu egoísmo não se satisfaz com o respeito que possam adquirir de ações desprendidas. Por que não investem no meio social? Para manutenção do Poder!Embora sejam conhecidos como autoridades, não o são, porque esta é sinônimo de respeito, dignidade, honestidade, sapiência, etc. Estes escravizadores morais não sabem, mas a massa já revogou suas procurações.Acordem governantes, logo não haverá poder e povo para governar, os governados desaparecerão e vocês estarão sozinhos, sem possibilidade de satisfazer os pessoais interesses.Pensem bem, por egoísmo mesmo, passem a respeitar os governados, que são, em verdade, seus superiores, a única finalidade da existência do governante, pois este como indivíduo não é nada e, pior ainda, é um pária de suas próprias iniciativas. 

 

Capítulo 4: 

A JUSTIÇA 

Difícil conceituar justiça, bem mais fácil falar em adequação social. O que o meio aceita é justo, o que não é acatado é injusto.Dentre os indivíduos que exercem funções voltadas à promoção da justiça, encontramos elementos com  egoísmos “bonus” e “malus”.Como parcela do poder público, na verdade faz parte da sociedade (em seu fim), e o sistema de distribuição da justiça padece de todos os vícios já elencados, verificando-se, porém, que ainda se discute em seu seio, como sanar os vícios. A luta é ferrenha, mas possível é vencê-la.Muito discurso de aproximar a justiça do meio social tem havido, vê-se, igualmente, entanto, que quem pode fazer alguma coisa está  trancado nalgum gabinete, apreciando questões de interesses dos poderosos e temendo a estes que podem (pensam) atingir os interesses destes membros da justiça, afetando seu egoísmo (controle de salários, ameaças de remoções, ostracismo, etc.).Nada deve ser temido, mas, isto sim, ao contrário, deve ser enfrentado e a força para tal terão os operadores da justiça aliando-se à massa e para isso, é claro, é indispensável saiam de suas confortáveis salas, que freqüentem as comunidades, para ouvir suas queixas, dúvidas e medos, fazendo o que os poderosos e os governantes deveriam realizar. Mais, ainda, é importante demonstrar que pelo menos a justiça se esforça para modificar ou compensar as desigualdades e para tal fim os membros das instituições que se dizem da justiça devem mobilizar-se, realizando visitas aos municípios distantes de suas circunscrições, minorando o esforço da massa. Devem abrir suas portas ao apelo popular, devem, por fim, adquirir o respeito que os poderosos e governantes (estes se confundem) não possuem, para obterem o reconhecimento de sua autoridade, a autoridade concedida pelo meio social.Isso tudo não adiantará, entretanto, se tais operadores não tiverem disposição para aceitar as mudanças sociais e as mudanças ideológicas que acompanham as primeiras. Enquanto não tiverem o alcance para aferir o que o meio necessita e não tiverem a coragem de utilizar da interpretação da lei em prol da maioria, permanecerão nos seus papéis de burocratas coniventes com toda a sorte de mazelas porque passa a sociedade. A leniência só pode levar a um resultado: manutenção do estado atual das coisas, aumento dos desvios, da corrupção e da violência.Abram as mentes enquanto é tempo de exercer dignamente suas atividades, poderá ocorrer que num futuro bem próximo nem oportunidade de atuar tenham.Temos a certeza, seguindo esta senda, é crível acreditar em alguma mudança, há muitas coisas que não estão adequadas socialmente, não assimiladas pelo meio social e este quer e dará respaldo para que sejam corrigidas.A experiência, ainda que tímida, tem sido positiva, no sentido de angariar a confiança da população, na medida em que o sistema da justiça se abre a ela e através dela toma conhecimento de inúmeras irregularidades, bem mais do que as notícias que chegam aos gabinetes.Sim, é verdade, o labor é extenuante, a remuneração não corresponde ao esforço e às vezes sequer apoio dos pares é conhecido.Mas importa apontar : A vida só tem fundamento no trabalho e o melhor trabalho é o voltado ao meio social, ou seja, para nós mesmos, este a longo prazo vem a ser mais gratificante e alimenta muito mais nosso egoísmo do que as multifárias e mesquinhas ações já mencionadas.    A justiça, enfim, deve se abastecer no ideário humanista, na defesa das melhores condições para as pessoas, de qualquer estamento, encontrarem seus projetos de vida, descobrirem suas personalidades, desenharem suas sociedades a partir dos humanísticos valores ético-sociais que a experiência de conviver indica. Esta é a prática anelada dos meios de prestar justiça, esta é a adequação social ou Justiça que todos esperam, justiça para a humanidade, e não para o patrimônio, para as coisas ou para o formalismo das normas, aparentemente auto-suficiente na sua linguagem legal, mas absolutamente vazio na sua inaplicabilidade ao seres concretos, em vista de sua utopia do homem ideal abstrato, deslocada da realidade do destinatário da norma que é o homem real.                         

 

Capítulo 5: 

A FAMÍLIA 

A vida das pessoas é uma sucessão de fatos e uma sucessão de egoísmos, ou melhor, seu egoísmo é diversificado revelando-se em vários atos.Como já falamos neste exame, anteriormente, na sociedade, na ordem pública, na economia e na justiça, a consagração do ego se revela de forma tangível, salta aos sentidos e, por isso mesmo, é mais fácil de ser combatida. A fonte, entretanto, de todos estes males é de difícil detecção e enquanto não atacarmos a origem dificilmente os extirparemos, ou melhor, os visualizaremos.Sem ter isto como regra absoluta, pode-se alinhar como concreta, porém, a constatação de que o individualismo prepondera sobre o coletivo, vale dizer, embora o homem possa ser definido como um animal gregário, quando se coloca à sua frente um interesse inteiramente seu e outro que não lhe dê quinhão imediato, mas que pode colaborar com o meio onde vive, opta, sem pestanejar, pelo benefício direto que pode ser retido sem divisão.Vimos falando em egoísmo, mas, afinal, onde nasce essa conduta humana que ao longo do tempo toma facetas terríveis, diabólicas?Sua fonte é a família, sítio onde assumimos nossas iniciais características, as quais irão dirigir nossos destinos por toda a existência, a não ser, claro, com a conscientização, mediante catarse (ou fatores externos - acidentes, doenças, etc.), sobre os desvios comportamentais que se tornam flagrantes ante o cerceamento das ações daqueles que nos avizinham.Partindo desta idéia, não se pode falar em egoísmo sem focá-lo sob o ângulo familiar.A família, dita a célula-mãe da sociedade, forma o indivíduo, incutindo-lhe as boas e más iniciativas. Pode-se concebê-la como um laboratório social, no qual o momento histórico, político e cultural de um povo reflete em microcosmo, acrescido dos modelos particularizados da conduta dos pais (ou, no caso de núcleos monoparentais, do pai ou da mãe), que, como a batuta do maestro, são a linha determinante das atitudes que os filhos terão futuramente (evidente, aqui, que os fatores econômicos são relevantes, conducentes à instabilidade dos consórcios conjugais e à perda de condutores morais relevantes). Para exemplo, podemos extrair um costume familiar brasileiro, onde o filho varão é educado para não temer, para ser melhor que a mulher, para fazer uso desta, para não agir como efeminado etc. Não se lhe ensina (como regra), no entanto, a respeitar seu semelhante, a respeitar regras de trânsito, a não jogar lixo nas vias públicas, a amar sua pátria, a se desenvolver (instruindo-se), a lutar por seus direitos, a conhecer seus deveres, mas se lhe passa a necessidade de não arrepender, de não pedir desculpas, de ajeitar as coisas, de não observar regras, de não ser o melhor, mas optar por ser mediano, dês que atinja seu objetivo. A filha, a mulher, é condicionada a aceitar os princípios dos varões, a pensar neles como os superiores e ela subalterna, a procriar, a dedicar-se aos trabalhos domésticos, além de trabalhar, trazendo um adjutório à renda familiar, a se instruir somente o necessário para aceitar as adversidades, etc.Ambos são destreinados para a vida, não aprendem a amá-la e compreender a importância de suas existências. São apenas condicionados a falsamente dirigir ou se submeter.Anacrônica esta visão? Lamentavelmente, não é! Aos que nela não mais se enquadram nossas escusas e congratulações.No seio familiar há competição entre irmãos, procurando obter os privilégios de ser o escolhido, ignora-se a divisão de tarefas e pouco se dialoga. Os pais se encontram no ato de alimentação e de procriação, não cobram da prole grandes esforços, não acompanham seus estudos, seu desenvolvimento bio-psicológico; afeiçoam-se aos filhos mais tranqüilos, procurando mostrar que um é melhor que o outro na conduta do lar, estabelecendo feudos debaixo do mesmo teto, onde as vantagens e os direitos são distribuídos conforme a maior ou menor simpatia por este ou aquele filho. Isonomia é palavra desconhecida.Pois bem, resulta daí os indivíduos conterão uma bagagem extremamente unilateral, voltada à formação dos mesmos guetos intrafamiliares que conheceram durante toda sua formação e isto nada mais é do que o egoísmo.Quando sofrerem frustrações ou não receberem as atenções de que julgam merecedores, os egoístas repetirão a lição que tiveram no lar, realizarão artimanhas para obtê-las, pactos … até se corromperão para serem os prediletos entre os assediados e assediadores.Indelével permanecerá na vida do ente esta busca em favor de si e no futuro, nos negócios, no trabalho, na vida, enfim, carregará este egoísmo.À evidência do cético que nossas famílias * (nem todas, é claro) estão desajustadas, vítimas da guerra do ego, onde não se pede desculpas, onde um simples carinho é recebido com desconfiança, como propina, como condicionante de uma futura contraprestação.Basta conferir os quadros resultantes das separações e divórcios: os pais descobrem a impossibilidade de permanecerem juntos, resolvendo desfazer os liames de convivência entre eles, egoisticamente decidindo que a prole também deve necessariamente sofrer com essa separação, ou seja, igualmente devem se separar os filhos, ficar com um ou outro e, ainda, tomar o partido daquele que lhe tenha a guarda.Analisando essas condutas – e todos conhecem inúmeros grupos familiares que sofreram com as mesquinharias do casal separado – é de se pensar que para procriar seria imperioso um teste psicológico, como uma habilitação para ser pai e mãe.Os transtornos comportamentais testemunhados diuturnamente decorrem, a maior parte, da inabilidade dos pais em gerir a formação de seus filhos.Na separação ou divórcio, além de os pais repassarem suas amarguras às suas crias, tornam-nas meio de chantagem entre si, verdadeiras moedas de troca, para obter vantagens econômicas ou para ampliar e manter as dores do rompimento relacional.As mães e pais esquecem que os vínculos filiais, diferentemente da vida entre cônjuges, namorados, conviventes ou companheiros, são permanentes em face de ambos, logo, as maldades emitidas de um ou outro fixam modelos e exemplos, além de indiscutivelmente recalcarem os filhos.Sim, é na inconsciência – de seus defeitos de ego – dos adultos gerentes da família que se forma o ambiente propício ao egoísmo!O ser humano se preocupa com o eu e mesmo relativamente àqueles que simpatiza ou ama repassa esta carga. Fala em fraternidade, mas massacra filhos, irmãos, cônjuges, amigos etc. de seus semelhantes e seus próprios, como se possuísse algo que o diferenciasse dos demais, o discurso se desencontra do comportamento.Onde estão nossos pais, filhos, amigos, inimigos? Como estão? Nem sempre se pode responder a estes questionamentos, porque normalmente estamos indagando: Como estou? O que farei? Como meu vizinho pôde obter aquele bem? Por que eles são felizes?Nunca é tarde para pensar, meditar, arrepender, dividir, perdoar, não competir, compreender, procurar ver como estão nossos similares, sua vida, seu estudo, sua saúde, seu estado de espírito.Ao egoísta novamente o aviso: Desperta, vai, olha em sua volta, não permita que seus vícios transbordem para a sociedade, caso contrário vai faltar espaço para tanto egoísmo. 

 

Capítulo 6: 

A LEI 

Não se pode falar em governantes, justiça, meio social ou família sem se apreciar a lei e seu egoísmo.Partindo de um conceito universal temos que LEI é a norma genérica, abstrata e impessoal, que impõe um comportamento para todo e qualquer elemento de determinado meio social (genérica). É abstrata porque antecipa hipóteses várias de ações ou omissões do elemento humano e é impessoal por não se dirigir de maneira fisiológica, particularizada, a este ou aquele indivíduo e nem poder ter a marca do legislador, o direcionamento casuístico que este egoísta tenha querido dar.Tendo em mãos tal conceituação, verifica-se que a LEI como princípio ideal não teria como estar eivada de egoísmo, bonus ou malus, eis que sendo abstrata, genérica e impessoal, não poderia ter tendências. Infeliz engano.A denominação idealística de LEI está correta, entretanto, na história do ser humano, sob a justificativa de legislar em favor do bem comum, o homem tem editado normas que preservam somente a si mesmo e aos seus pares. Assim, as leis, os documentos carregados de imposições (prescrições) comportamentais, visam controlar, aprisionar socialmente, aqueles que não podem interferir no processo legislativo.Egoisticamente, os privilégios das normas, as quais permitimo-nos não mais chamar de LEIS, recaem nas mãos de seus elaboradores e os rigores na massa ignara. 

O resultado de tais constatações conduz à assertiva de que a apreciação da norma exige muita cautela e a utilização de cuidado ainda maior, pois toda vez que se pretende seja compelido um indivíduo a submeter-se à determinada regra, antes, ao aplicador da norma impõe-se indagar: estou eu sujeito a tal limitação caso me conduza de forma igual ou semelhante? Se positiva a resposta, para sua realidade a norma é aplicável, se negativa, injusto seria imputar-se regramento a outrem, se nós mesmos não podemos ser pelo mesmo alcançado. As normas, porém, muitas delas, só servem a determinados amos e estas não merecem ser observadas, porque nas mesmas encontramos a falência do Estado, da Instituição Estatal como representante da coletividade e ressalta ante tal quebra a prevalência do indivíduo, do seu ESTADO NATURAL, porque antes da lei e da própria sociedade, temos o ente, que agregado forma a coletividade e esta, para melhor administrar “seus interesses” comuns forma o Estado.Ora, se o Estado não é legítimo, porque oprime a sociedade, à evidência de que suas normas são opressoras, ilegítimas e egoístas e, portanto, não são LEIS enquanto abstração de um ideal, aquelas não podem ser consideradas, por não possuírem poder de coerção, havendo nesta circunstância, total liberdade ao indivíduo para a